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Povos tradicionais de matriz africana defendem legado histórico do Mercado Público

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Manifestação feita nesta segunda-feira, ao redor do Mercado Público (Foto: Divulgação)

Um dos maiores receios com a concessão do Mercado Público à iniciativa privada (temporariamente suspensa por decisão do TCE proferida nesta terça-feira) diz respeito a uma possível desfiguração do espaço a partir da entrada de um novo administrador. Ainda que o edital preveja que questões envolvendo manifestações religiosas possam seguir ocorrendo no Mercado Público, mesmo após uma mudança de administrador, os povos de matriz africana temem que essa referência possa se perder.

Nesta segunda-feira, 17, um grupo se manifestou no entorno do Mercado Público. Uma dessas pessoas era Iyá Vera Soares dy Oyá Ladjá, oriunda do Povo Yorubá. Ela afirma que há uma luta para a legitimação de lugares que representam a história de uma sociedade e de um povo.

Um dos símbolos do espaço é o Bará do Mercado. Um mosaico, exatamente no meio do Mercado, simboliza a morada do Orixá Bará e recebe manifestações religiosas cotidianamente. “É natural que nós, hoje, 150 anos depois, estejamos brigando pela história. Nossa identidade foi arrancada. Pela segunda vez arrancar a nossa identidade é simplesmente desumano”, destaca Yyá Vera, que integra o Centro Tradicional de Matriz Africana 13 de Agosto, em Porto Alegre. Apenas na Capital estima-se que haja 20 mil terreiros. No RS hoje há aproximadamente 65 mil casas de tradição, como também são chamados.

Ela ainda reflete sobre o que o Mercado representa para a cidade, ponderando que o processo de concessão do local estaria colocando em pauta a história de um povo. “É o único lugar onde compra o branco, o preto, o pobre, o rico. O preto entra ali sem ser perseguido, como nos shoppings. Mercado Público não tem isso, é uma relação de confiança do seu povo”, comenta.

Diante da decisão do TCE, que finalizou nesta terça o julgamento de uma ação para paralisar a licitação, Yiá Vera frisa que “estamos feliz, mas atentos”. Segundo ela, nem a pandemia foi suficiente para sensibilizar a atual gestão, que, segundo ela, não promove diálogo com a sociedade. Ela ainda frisa que os atuais permissionários são parceiros nas manifestações religiosas que ocorrem no Mercado Públicos.

“São muitas histórias que nós levaríamos muito tempo para contar. Entendemos que tem tantas coisas que essa gestão poderia se preocupar. Na pandemia, por exemplo, que exige distanciamento, manutenção maior da higiene. Como é que vai ter isso quando uma prefeitura não sabe que lá no morro não tem água? Na Lomba do Pinheiro, por exemplo, chegam a ficar dias e dias sem água. Tem casa, na maioria das nossas vilas e morros, que um metro e meio é uma distância entre uma casa e outra, onde lá dentro daquele barraco moram 10, 12 pessoas, com o mínimo de saneamento básico, com esgoto a céu aberto”, finaliza Yiá Vera, que também é coordenadora nacional do Fórum Nacional de Segurança Alimentar dos Povos Tradicionais de Matriz Africana.

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