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Sistema de ônibus de Porto Alegre caminha para o colapso, concordam especialistas

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Foto: Maria Ana Krack/PMPA

A certeza de que o sistema de transporte de Porto Alegre vai colapsar se nada for feito foi um dos pontos de convergência entre o professor Luiz Afonso Senna e o advogado Alceu Machado na live de estreia do Porto Alegre além da Covid-19, na noite desta segunda-feira, 13. O debate, de uma hora, teve o transporte público como tema central e colocou lado a lado, com mediação de André Machado, duas das figuras que mais conhecem o assunto na Capital. Senna é engenheiro, professor da UFRGS e foi secretário de Transporte e presidente da EPTC em Porto Alegre na gestão Fogaça. Alceu é advogado há quase 30 anos das empresas privadas que atuam na cidade. Ambos conhecem o sistema com o olhar de quem está ou esteve dentro das estruturas.

Senna, que é pesquisador da área, contextualizou historicamente a estruturação do sistema de transporte, focando em Porto Alegre. Se até a virada do século o Centro era uma grande confluência para serviços comerciais, bancários, públicos e de compras, a circulação local nos bairros começou a se sobrepor, impactando nas viagens de ônibus, por exemplo. “A cidade foi se descentralizando. Boa parte daquelas viagens começaram a ser feitas localmente”, pondera o professor.

O sistema de transporte de Porto Alegre, portanto, foi ficando ultrapassado, mas mantinha, segundo Senna, uma estrutura operacional rígida, alicerçada numa “velha forma da cidade operar”. O advogado Alceu Machado, que iniciou sua atuação no setor participando diretamente das convenções coletivas dos trabalhadores do segmento, entende que é necessário se pensar na tarifa e no tipo de serviço que se quer. Ele ainda creditou às isenções e à operação do transporte por aplicativos parte significativa do percurso para o colapso que o sistema de transporte da Capital está percorrendo.

Discussão foi transmitida pelo Facebook e também serviu para responder questionamentos de quem estava acompanhando

“Se olhar para o preço da tarifa, ok, é caro. Mas por quê? Para se ter uma ideia, Porto Alegre é a capital com o maior número de isenções do país”, destacou Alceu. Há, segundo ele, um desequilíbrio do contrato de concessão, fruto da única licitação feita até hoje no setor, em 2016. De lá para cá, 600 vagas já foram extintas no sistema de ônibus de Porto Alegre, incluindo motoristas e cobradores, em função da redução de circulação de veículos, seja diminuição de linhas ou de horários.

A entrada dos aplicativos como opção de transporte na Capital, no final de 2015, foi um fator chave para acelerar a crise do sistema público de transporte, incluindo os ônibus, mas chegando às lotações e aos táxis. O colapso, para Senna, era previsível, mas se acelerou com veículos da Uber, 99 e Cabify circulando por Porto Alegre sem qualquer regulamentação do poder público. Estima-se que, hoje, haja cerca de 40 mil desses veículos nas ruas da Capital. No início, segundo Alceu, a expectativa era de que os veículos de aplicativos concorressem com os táxis, mas a realidade é que o sistema de ônibus e lotações também sentiu os efeitos rapidamente, principalmente nas viagens mais curtas.

Repensando a organização do sistema

A forma como o sistema de ônibus se organiza precisa ser toda repensada, concordam Alceu e Senna. O professor da UFRGS vê, por exemplo, como insustentável a permanência dos cobradores nos ônibus por muito mais tempo. É possível, de acordo com ele, que se resista por alguns anos ainda, mas o custo precisará ser arcado. Os cálculos mais atuais estimam que a retirada total dos cobrados do sistema de transporte de Porto Alegre reduziria a tarifa em R$ 0,80. O tópico era um dos projetos enviados pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior à Câmara de Vereadores em janeiro deste ano. Assim como os demais, não foi apreciado.

Os desafios que se colocam ao sistema de ônibus na Capital são muitos. Se a licitação de 2016 estimava um número de passageiros que hoje não existe, há que se olhar, segundo os dois especialistas, para formas de levar de volta o cidadão porto-alegrense para dentro dos ônibus. “O colapso do sistema está perto de acontecer. O grande drama vai ser para aquelas pessoas que moram na periferia e não tem a possibilidade de usar esses aplicativos”, destaca o professor Luiz Afonso Senna. “Uber faz o preço que quer. Ônibus não pode fazer. É preciso repensar isenções, cobradores e outras questões para baixar a tarifa”, complementou Alceu Machado.

Quando se fala de transporte público não é apenas o transportar pessoas que está em jogo, aponta o professor Senna. A dimensão social do transporte, pondera, é absolutamente relevante para uma cidade. “Quando o sistema colapsar, teremos várias razões, mas uma delas será a omissão do poder público”, afirmou o Senna, para a concordância plena de Alceu Machado.

A live está disponível no Facebook para quem perdeu ou quer rever. Clique aqui.

Live de hoje. Nesta terça-feira, 14, André Machado media uma conversa sobre sustentabilidade e os ODSs (Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável) da ONU. Participam Marcela Ávila, especialista em Políticas Públicas pela UFRGS, e Júlia Caon Froerd, empreendedora na França. Será novamente às 21h, em facebook.com/jornalistaandremachado.

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