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Cidades inteligentes e mobilidade urbana: pesquisador defende repensar relações de trabalho e vê legado do home office

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O espaço para cada modal no trânsito e a interligação entre os diferentes tipos de transporte integram os conceitos de cidades inteligentes (Foto: Alex Rocha/PMPA)

Quando se pensa em uma smart city (cidade inteligente) talvez venham à mente imagens de serviços robotizados e uma perfeita automação pelas ruas da cidade onde moramos. O conceito inicial do termo, surgido há cerca de 20 anos, talvez tenha difundido a ideia, mas o fato é que ela foi reapropriada e passou a ser entendida nas cidades como algo menos fantasmagórico e mais próximo do real de hoje. A análise, não exatamente com essas palavras, foi feita pelo professor Eduardo Pellanda, da PUCRS, em uma live do projeto POA 2020 Talks, nesta quarta-feira à noite, pelo Instagram.

A iniciativa está levando, ao longo desta semana, seis pensadores que refletem sobre as transformações contemporâneas em função da tecnologia e da inovação. Pellanda teve as smarts cities como tema central da sua fala. Ele credita ao surgimento e à rápida expansão dos smartphones uma guinada no conceito do termo.

“Quando os smartphones chegaram, popularizou a internet móvel, indo para o bolso das pessoas. Então com esses dispositivos, todo tempo transmitindo e recebendo informações, vimos que tinha algo diferente, alterava bastante o conceito que a gente tinha de cidades inteligentes”.

O professor, doutor em Comunicação pela própria PUCRS, entende que a mobilidade é um dos eixos centrais nas discussões sobre as cidades inteligentes e do futuro. Ele cita, por exemplo, a poluição, principalmente sonora e do ar, como fatores relevantes que impactam na qualidade de vida da cidade e das pessoas. A adoção de veículos movidos a energia elétrica contribuiria para a diminuição desses dois tipos de poluição.

“Poder ter um carro silencioso e que não polui, eu imagino quando 100% da cidade for assim”, sonha o professor. O planeta não vai resistir, segundo ele, a esse mesmo tipo de intensidade de poluição que se tem atualmente. “A vida na China é uma vida complicada. Já viviam com máscaras há muito tempo, respirando um ar péssimo. Olhar como as cidades estão mais limpas hoje, no mundo, com muita gente em casa… Olhem os gráficos de CO² na maioria das cidades do mundo agora e quando voltar tudo ao normal. É absurda a diferença.” O site WAQI.INFO monitora o índice de qualidade do ar no mundo.

Pellanda fala com a propriedade de quem não apenas pesquisa o assunto há anos, mas também de quem teve o primeiro carro elétrico do Rio Grande do Sul, em 2015. Para ele, entender a forma como as pessoas se movem, na atualidade, é algo central, principalmente nas grandes cidades, que precisam ser otimizadas dando mais tempo ao seu cidadão.

“É um absurdo a gente perder mais de uma hora para ir e voltar do trabalho. São duas horas das 24 horas do dia em transporte”, destacou Pellanda. O exemplo pode até ter sido conservador. Moradores da Restinga que trabalham no Centro ou nos caminhos da Zona Norte costumeiramente ficam de três a quatro horas por dia dentro dos ônibus de Porto Alegre, em geral mais de um por viagem.

Lições do Coronavírus. A pandemia do Coronavírus está deixando muita gente em casa e diversos processos do dia a dia estão sendo repensados e ressignificados, ao menos por quem atua profissional em uma área que permite o desenvolvimento das atividades pelo computador.

Um desses processos que agora é colocado em xeque é o trabalho presencial em um escritório e a fixação de horas de trabalho num dia. O professor Eduardo Pellanda vê as duas práticas como contestáveis, também no sentido de pensar uma cidade mais inteligente, otimizada e na qualidade de vida do cidadão.

O home office, ao qual muitas empresas tiveram que aderir sem muita escolha, pode levar à reflexão sobre quais trabalhos podem ser feitos remotamente de maneira fixa. Pellanda defende, pelo menos, a ideia de um hibridismo nas práticas de trabalho. A videoconferência ou o home office não iriam substituir o trabalho presencial por completo, mas sim fazerem parte de uma lógica mesclada.

“Será que a gente precisa trabalhar tanto assim, na questão do tempo de trabalho? Será que o tempo de trabalho quer dizer qualidade no trabalho? Será que um trabalho mais concentrado num menor tempo do dia não renderia mais? Não necessariamente a gente precisa trabalhar extensamente ao longo do dia como a gente trabalha”, questiona ao propor uma reflexão sobre os tipos de trabalho e os espaços onde a mão de obra é devidamente prestada.

Estar em casa permite o que Pellanda chama de empoderar os bairros. Isso porque o comércio do nosso bairro, das quadras vizinhas, é o que poderá ser frequentado. Não é raro ver relatos de quem nunca consegue estar perto de casa no horário comercial, deixando de aproveitar uma série de benefícios que estão perto do seu local de moradia. “Repensar o bairro, refazer, colocar gente na rua, diminuir violência”, frisa o professor.

Por quase uma hora, o professor Eduardo Pellanda também respondeu perguntas feitas pelo mediador da conversa, o diretor de Inovação da Prefeitura de Porto Alegre, Paulo Ardenghi, e por quem acompanhava a transmissão. Ele ainda abordou questões como o uso de sensores de maneira mais efetiva nas cidades – deixando sinaleiras mais inteligentes, por exemplo -, aplicativos que direcionem o cidadão por caminhos levando em consideração não apenas o tempo de viagem – se está de bicicleta, por que não pedalar por um caminho onde o ar é menos poluído, mesmo que demore mais? -, a ocupação dos espaços públicos em Porto Alegre e a ideia de pertencimento como fator-chave para o avanço das cidades.

O professor e pesquisador ainda defende uma reflexão sobre o que queremos da tecnologia e da inteligência artificial. É preciso saber, pondera, para onde os esforços da sociedade serão direcionados. A conexão de vários tipos de saberes e um tratamento humanístico das tecnologias digitais deve ser estabelecida. “Tudo o que a gente pode fazer para as cidades ficarem melhores está a serviço das pessoas”, finalizou Pellanda.

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