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Ibsen Pinheiro e a vida imortal

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Se tem algo que sempre precisamos ter em mente é a finitude da vida. Da nossa e das vidas daqueles pessoas que amamos. Por vezes, deixamos para o futuro uma visita, um telefonema, um carinho, uma palavra de admiração. Tive o privilégio de conviver algumas vezes na vida com Ibsen Pinheiro. Não apenas pela relação do jornalista com a fonte, mas pelo vínculo familiar.

Ibsen Valls Pinheiro e Dilamar Valls Machado eram primos, filhos das uruguaias Lilia e Célia. A primeira vez que o vi foi em 1978. Ibsen era vereador de Porto Alegre, o mais votado em 1976, e concorria a deputado estadual. Eu ia com meu pai (então cassado) ao seu comitê no alto da Avenida Protásio Alves. Muito politizada, Tia Lilia se admirava com o quanto aos 11 anos eu gostava de política. Distribuir santinhos do Ibsen era uma brincadeira séria. E eu não sabia a dimensão que este homem tomaria.

Com a abertura, Ibsen ficou no MDB, meu pai foi para o PDT e, de alguma forma, se afastaram um pouco. Houve um dia, em 1992, que Ibsen era o presidente do Brasil e meu pai, o prefeito de Porto Alegre. Um no comando da Câmara dos Deputados e outro na presidência do legislativo municipal. O Ibsen se aproximou de fato, de mim e dos meus irmãos, com a hospitalização do meu pai, em 2001. De lá para cá, encontra-lo foi sempre um motivo de muita alegria.

Nosso último encontro foi em outubro do ano passado e em um dia de muita festa. Nos reuníamos em um sítio, em Osório, para celebrar a família. Era a reunião dos netos do seu João Carlos e da dona Célia. O primo Ibsen era o convidado especial. Lá estava eu, de camisa do Peñarol e feliz por ter voltado do Uruguai em uma viagem para encontrar as origens de minha avó.

Ibsen (ao centro) em encontro de nossa família, em Osório, no mês de outubro / Foto Arquivo Pessoal

Antes de embarcar, confirmei com meu Tio Machadinho o local de nascimento da Vó Célia. Cheguei a Salto, o destino informado, e me emocionei por lá ao imaginar minha avó ainda menina circulando pela cidade, passeando na hermosa praça central e indo à missa na catedral. Fiz questão de relatar ao Ibsen, o mais vivido de todos naquele encontro.

“A mamãe e a tia Célia não são de Salto; elas são de Bella Union”, revelou Ibsen ao me fazer perceber que chorei a 142 quilômetros do local onde minha avó viveu. Não bastasse, Ibsen ainda revelou que meu bisavô catalão Francisco Valls mudou-se para o lugar para construir a pequena ponte que liga o país vizinho à brasileira Barra do Quaraí. Há cerca de dez anos, Ibsen havia feito o roteiro que eu acabara de fazer. A diferença é que ele fez o caminho certo.

Ri muito da história que, inclusive, contei na minha despedida na Rádio Bandeirantes. Fiquei de pegar com o Ibsen o número do telefone dos nossos parentes uruguaios. Deixei passar um, dois, três meses e Ibsen não está mais aqui. Hoje é dia de dizer adeus. Muitos textos por aí falam da genialidade das frases do Ibsen, de como sua reputação foi injustamente triturada, de como se reergue, de como foi um colorado inesquecível. Aqui optei por falar do vô da Lina, do primo do Dilamar, do meu primo em segundo grau.

Como acontece com os grandes homens, cada vez vamos falar mais sobre o seu legado, reler seus discursos, rever seus grandes momentos. Obrigado Ibsen pelo privilégio de ter convivido contigo. Infelizmente não aproveitei todas as oportunidades que tive para compartilhar da tua sabedoria. Imaginava que eras imortal.

2 COMENTÁRIOS

  1. Gostei de tua reflexão sobre p primo Ibsen Pinheiro. Ele era realmente um ser humano muito bonito e de muito valor. Condenado como político teve sua redenção quando totalmente absolvido pelos seus pares do Ministério Público . Quando deputado, em plena ditadura esteve ao lado do caixão da querida e saudosa tia Lilian coberto pela bandeira do partido comunista . Tenho memórias lindas, dela. E de Ibsen confortando meu pai quando minha amada vó Célia morreu. Me abraçando disse: Ela já tinha mostrado para minha mãe que estava com o cartão vermelho . Coisa típica das castelhanas. Perdemos um ser humano de luz e bondade . Grande abraço primo Andre que esteve comigo no momento mais triste de minha vida.

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