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Qual é o privilégio da pessoa com deficiência?

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Projeto de lei 6159/19. Guarde este número pois será importante combatê-lo. Antes de posicionar-me contra a proposta do Governo Federal, que trata sobre cotas de emprego para a pessoa com deficiência, fui ler a exposição de motivos do texto. O projeto é cruel, trata cidadão como mercadoria que pode ser substituída por uma contribuição. Dane-se a realização pessoal de cada um. Compreensível numa sociedade que não exerce a empatia.

No instagram @pai_mala vi uma manifestação do Beto Bigatti, pai do Gianluca e do Stefano, um deles colega do meu sobrinho Rafael. Nos seus textos e fotos, exala felicidade na relação com os filhos. Tem um casamento harmonioso e um bom emprego no Tribunal Regional Federal da 4a Região. Tem quase tudo, menos a mão direita. Nasceu assim por um problema congênito que apenas agora descobriu ser a Síndrome da Brida Amniótica, que ocorre quando há o aprisionamento de partes do feto por anéis fibrosos do saco amniótico no útero.

Pedi para o Beto me ajudar com um texto aqui no blog. O material está abaixo e recomendo muito a leitura. Não há como não se posicionar. Os grifos são meus.

Beto com os filhos Gianluca e Stefano / Foto: Arquivo Pessoal

Privilégios


Aleijado, defeituoso, coitado, coitadinho, tadinho, cruz, maneta.
Já fui chamado por todos esses termos. Prefiro ser chamado de Beto.

O Dia Internacional da Pessoa com Deficiência (3/12) existe porque ainda usam os adjetivos acima. Acabe com eles, e não serão mais necessárias datas comemorativas, cotas e tudo aquilo que alguns chamam de “privilégio”.

Porque é bem verdade, temos muitos privilégios.


Sim, tenho o privilégio de não ter uma mão e de nenhum lojista me contratar por “não ter boa aparência”.
Sim, tenho o privilégio de já ter escutado “não sei porque vagas reservadas em estacionamento: deficientes deviam ficar em casa”.
Sim, pessoas com deficiência têm o privilégio de serem eliminadas de processos seletivos de emprego sem justificativa alguma, mas entendem seu privilégio pelo olhar do recrutador.
Sim, cadeirantes têm o privilégio de não terem onde circular em vias públicas.
Sim, pais de crianças com deficiência têm o privilégio de verem as pessoas afastando seus filhos dos filhos deles.
Sim, pessoas com paralisia cerebral têm o privilégio de não terem atendimento digno, nem tratamentos à disposição.

E, por fim, parece termos o privilégio de sermos o principal problema deste país ao ocupar cotas (mínimas), todos sabemos, as grandes causadoras do atraso econômico deste Brasil pujante.

Perdoe-me, o privilégio de ser irônico não abandonarei.

Hoje, temos a oportunidade de discutir o equívoco e retrocesso que significa a simples tramitação na Câmara dos Deputados do projeto de Lei nº 6159, em caráter de urgência.

Paremos um parágrafo para refletir: sabe por que as empresas contratam pessoas com deficiência? Por serem obrigadas. A verdade dói.

O PL 6159 altera a política de cotas. A empresa deixará de ser obrigada. Você tem dúvida do caminho que seguirão? Sim, as empresas terão o privilégio de nos ignorar. Voltaremos à invisibilidade.

O mais dilacerante é que a contratação poderá ser substituída pelo pagamento de multa. Entende? É melhor pagar uma multa do que conviver com a diferença e a diversidade.

Não se preocupe, aprovado o PL, voltaremos às sombras (assim teremos tempo para assistir à tradução por LIBRAS nos pronunciamentos do presidente), o resto da sociedade terá, finalmente, o privilégio de viver na perfeição de suas vidas simétricas e o país voltará a crescer.

Beto Bigatti

Publicitário, deficiente físico, autor e idealizador do blog Pai Mala

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