Início Jornalismo Entrevista Há razão para o recém graduado permanecer no Rio Grande do Sul?

Há razão para o recém graduado permanecer no Rio Grande do Sul?

2681
0

Há poucos dias estive numa sala de aula da PUCRS para falar de Inovação. Meu papel era explicar como a imprensa olha para o setor (na minha opinião, os jornalistas ainda não entenderam a transformação que está ocorrendo). Junto comigo três brilhantes companheiros: Francisco Hauck (Fábrica do Futuro), Frederico Mentz (Instituto Caldeira) e Luis Humberto Villwock (PUCRS). Enquanto o Villwock mostra como o futuro vai nos atropelar se não nos conectarmos a ele, o Fred e o Chico mostravam que famílias tradicionais daqui entenderam que é possível fazer com que não percamos o trem (um supertrem) da história.

Ao final, uma professora pediu a palavra e fez um relato. Ficou impressionado com o que a Fábrica do Futuro e o Instituto Caldeira podem fazer pelo Rio Grande do Sul e como isto poderia impactar na vida de seus alunos. Ela revelava que no início do curso gosta de perguntar a eles onde se imaginam no futuro. E que as respostas mais frequentes eram “longe do Brasil”.

A professora Alessandra aparece no canto à direita da foto.

Para entender melhor este desalento, fui conversar na tarde passada com a professora Alessandra Costa Smolenaars Dutra, coordenadora do MBA em Gestão de Projetos em Negócios Digitais da PUCRS. Ela me recebeu em uma sala da Agência Experimental de Engenharia de Software da universidade. Abaixo, um trecho da nossa conversa.

Blog do André Machado – Como chegam os alunos na universidade? Conta um pouco sobre este desalento deles em relação ao país…

Alessandra Dutra – Eu dou aula para vários semestres. Tenho algumas dinâmicas que gosto de fazer. Geralmente na primeira aula brinco que eles tem que estar preparados para o mercado de trabalho e faço algumas pergunta de RH. Do tipo “quais são suas qualidades?”, “quais são seus defeitos?”, “o que você gostaria de fazer daqui a cinco anos?” e “quando eu concluir o curso eu vou ser o quê?”. Quando entrei na PUCRS lembro que o que mais queriam era terminar o curso. Com o passar do tempo comecei a ouvir coisas como “quero abrir meu negócio, mas quero morar fora”. Isto começou a ser mais frequente. Quando entrei aqui em 2014 era raro.

Blog do André Machado – Então não foi sempre assim…

Alessandra Dutra – Começou a crescer. Outra situação que vejo muito é que meus alunos que se formam estão indo embora. Tenho alunos que estão trabalhando nos Estados Unidos, em Londres, na Holanda. Tem muito emprego lá, especialmente na área de Data Science, uma área com grande demanda. No início pensei “que bom, estamos formando bem”. Só que depois passei a perceber que estamos perdendo os talentos que formamos.

Blog do André Machado – Estamos perdendo porque não querem ficar? Por não ter onde trabalhar?

Alessandra Dutra – São várias frentes. Uma é que o mercado lá fora está muito ativo e todos sonham com qualidade de vida no interior. Aqui estamos morando num Estado quebrado e com insegurança que faz com que os profissionais queiram ir embora. Não apenas alunos estão indo embora. Há profissionais que estão deixando o país.

Blog do André Machado – E como fazer este jovem ficar aqui?

Alessandra Dutra – Se eu soubesse esta resposta (risos)…. Temos um desafio que é formar bases boas e criar uma cultura de empreendedorismo. Aqui a PUCRS está se voltando muito para isto. Dar oportunidade para os alunos criarem seus negócios e ficarem no Brasil. É um grande passo. Se eles ficam aí e tem apoio, eles vão para frente. Temos que mudar a cultura dos impostos. O Brasil carrega muito sobre as empresas. Meu irmão abriu uma startup nos Estados Unidos e vendeu. Ele tinha a opção de recolher impostos ou investir os recursos em uma nova startup. Isto é fomento. Aqui, vendeu e o governo fica com o seu dinheiro.

Blog do André Machado – Na aula em que estivemos juntos você disse que viu uma luz para uma mudança…

Alessandra Dutra – Estes caminhos como a Fábrica do Futuro e o Caldeira ajudam muito. Ouvi do Frederico (Caldeira) que ele poderia ter ido para fora, mas ficou no Rio Grande do Sul…Isto me deu um sentimento de pertencimento dele. De ajudar o Estado.

Alessandra também fez a vida longe de casa

Alessandra está no time dos que fizeram a sua vida profissional longe da terra natal. Está no Rio Grande do Sul há 20 anos e sentiu na pela a dificuldade de começar uma vida profissional longe de casa. “Os gaúchos são muitos bairristas, muito fechados”, lembra. Ao menos o que a trouxe para cá não foi nenhuma desilusão com Florianópolis, mas o amor pelo seu marido.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui