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Por que estou abandonando o Software Livre em favor do OSI

Sim, você não leu errado: a partir desse post, estou oficialmente me desligando de qualquer associação que possa haver entre mim e o assim chamado movimento do software livre. Os motivos estão explicados abaixo.

Eu, assim como muitos de minha geração, tive o primeiro contato com o que chamavam de Linux através do saudoso Kurumin. Era uma época difícil, em que a maioria de nós acessava a internet via conexão discada e sofria para usar qualquer coisa que não fosse Windows XP. O tempo passou e, como muitos adolescentes da minha época, entrei no finado Orkut, no qual encontrei uma comunidade chamada Linux vs. Windows, na qual pude ampliar ainda mais o meu conhecimento sobre esse assunto.

As briguinhas que haviam naquela época eram, em essência, sobre qual distribuição era a melhor. Em particular, era: usuários de Slackware, de Gentoo e de Arch contra todo o resto, coletivamente denominados de noobs ou outro adjetivo pejorativo similar. Não havia, naquela época, uma grande preocupação com a filosofia do software livre, tanto que Alexandre Oliva, presidente da FSFLA, publicou uma mensagem na lista PSL em 2005 elogiando Carlos Morimoto e seu Kurumin, algo inimaginável nos dias de hoje.

O tempo passou e eu entrei em um curso técnico e, depois, em uma faculdade. Acabei criando um blog de tecnologia – houve uma febre deles em 2009 – e isso me levou ao antigo Espaço Liberdade, no qual comecei a perceber uma certa birra em relação ao Ubuntu.

Essa percepção me fez notar que estava havendo, na época, uma supervalorização do Ubuntu (assim como ainda ocorre ainda hoje). Na verdade, qualquer tutorial na internet assumia que o usuário estava usando Ubuntu – até mesmo para coisas que não dependiam dele, como reinstalar o Grub. Com o tempo, conheci um casal amigo de meu professor orientador que era muito ligado à filosofia do software livre e acabei  me enveredando para esses lados, pois considerava, à época, que estar do lado do software livre era a coisa certa a fazer,

Daí, foi só o famoso ativista Anahuac publicar um texto anunciando a morte do software livre no Brasil e eu me inspirei a escrever outro texto conclamando o Ubuntu como o maior inimigo do software livre em nossa nação. Desnecessário dizer que ambos os textos foram polêmicos, tendo inclusive uma palestra no FISL para rebater meus argumentos. Mas eu achava aquilo certo, afinal, o Ubuntu não estava de acordo com a lógica utilizada pelo movimento do software livre.

Foi quando Oliva fez uma palestra sobre novilíngua que eu comecei a perceber a verdadeira natureza de algumas coisas que me incomodavam nos ativistas de Software Livre, dentre as quais destaco a mania de criar trocadilhos com os nomes de qualquer coisa que fuja de seu agrado, como “Spybook” ou “rWindows”. Essa era uma novilíngua criada inconscientemente pelos ativistas a fim de que eles não precisassem dizer o nome das empresas que eles não gostavam. Mas o fato de Stallman ter dito que liberdade não é liberdade de escolha brotou uma ideia terrível em minha cabeça, segundo a qual, para o software livre, liberdade significa prisão!

Mais do que isso, apesar de o movimento software livre ser, em sua natureza, um movimento político, aqui no Brasil ele é, descaradamente, um movimento partidário, sendo que é possível ver, a quilômetros de distância, qual é o partido dominante nas listas de discussão e na (se assim podemos chamar) elite do Software Livre Brasileiro, inutilmente ao fato de várias personalidades – incluindo o próprio Stallman – terem dito que esse movimento não ser de direita, de esquerda ou pertencer a algum partido em específico.

Enfim, infelizmente, a ideologia das cabeças dominantes do movimento Software Livre Brasileiro fez mais mal a esse movimento outrora promissor do que quaisquer fatores externos. Hoje, a maior preocupação dos ativistas está em rotular todos aqueles que não concordam com suas ideias como OSI, ao invés de tomar alguma ação para mudar o cenário cada vez mais restritivo que toma conta de nossa internet. Ao invés de agir, ficam atrás do teclado definindo o que é software livre, o que é OSI e quem são os seus amigos e os inimigos.

Tudo isso é ridículo, patético e imaturo. Enquanto perde-se tempo com essas discussões inúteis, bem diferente do que tínhamos no início do século XXI, cada vez mais empresas e usuários finais se beneficiam do Open Source, de maneira tanto direta quanto indireta. Os usuários, aliás, apenas querem usar seus computadores, com o que há de melhor e mais recente disponível, sem se importar com questões sobre licença de uso ou de filosofia.

De fato, podemos perceber que as definições de software livre e de open source são muito parecidas, mas se dedicar ao software livre exige um esforço exponencialmente maior do que a dedicação ao open source, e esse esforço nem sempre vale a pena. Não são todas as pessoas que se contentarão em usar apenas 50% da capacidade de sua nova e cara placa de vídeo porque é isso que o driver livre consegue entregar: a maioria dos usuários (principalmente os avançados, que escolhem a dedo seu hardware) irá exigir a capacidade máxima de seus equipamentos, nem que para isso seja necessário utilizar-se de um driver privativo.

Infelizmente, um grupo de pessoas em posição dominante colocou o software livre, no Brasil, no mesmo saco de movimentos como o feminismo, o ateísmo ou o veganismo: transformou seus membros em um grupo de manifestantes ineficientes que faz um grande barulho mas não produz resultados práticos para coisa alguma. O software livre, do jeito que está no Brasil, é um movimento ex-clusivo, onde seus membros fazem questão de hostilizar novos proponentes.

Em muitas palestras, vários ouvintes se assustam com o fato de que Oliva e Anahuac serem “radicais”, mas radicais para quem? Coloquem um gamer profissional, que se sustenta com jogos, na roda de conversa e veremos até que ponto vai o radicalismo dos ícones do software livre nacional.

Hoje, enxergo a superexposição do Ubuntu em blogues, sites e em redes sociais como uma reação normal do mercado e considero que, embora essa situação seja um pouco desagradável, a melhor maneira de contorná-la será as outras distribuições inovarem e se destacarem. Logo, assim como antigamente vi que era certo, para mim, apoiar os manifestantes anti-Ubuntu, hoje vejo que é certo me afastar desse grupo que se adonou do software livre no Brasil e me voltar ao open source, pelo fato de eu não concordar com suas ideias e posições políticas. Desta forma, tenho a liberdade de poder usar o que eu quiser e achar melhor, sem precisar me preocupar se estou ou não de acordo com uma licença ou linha de pensamento em específico.

Espero, porém, que o movimento software livre no Brasil possa se corrigir em breve e retornar àquilo que era no início do século, ao perceber que OSI e Free Software não são movimentos antagônicos, mas complementares.

Ah sim: desde o final do ano passado, com meu novo notebook, estou usando Windows 10 nativamente e tenho algumas máquinas virtuais com distribuições de Linux.

  • André Machado

    Professor de Matemática formado pela UFRGS e entusiasta de tecnologia.

19 thoughts on “Por que estou abandonando o Software Livre em favor do OSI

  1. Parabéns pelo texto. Concordo com tudo. Só queria fazer um reparo: será que o Arch já existia mesmo naquela época? Me parece que o terceiro nome seria o Mandrake, não?
    Um abraço.

  2. Concordo 100%, tirando algumas coisas. Sim a conta fecha pois eu incluiria outras coisas. 😀
    Fui FISL, fui só nos dois primeiros¹. Como o Branco foi o “idealizador”, não é necessário dizer qual o partido.
    Iniciei com o CRHL Marumbi (se não me engano) e depois passei para o Mandrake. Atualmente uso o Arch (Manjaro). O Ubuntu desisti na primeira versão pois tinha um bug conhecido e não foi corrigido pois tinha data para o lançamento. E eu fui um feliz contemplado. Como trabalho com programação, acho as briguinhas entre linguagens² mais ridículas ainda. Não uso Windows pois não sinto necessidade.

    ¹http://web.archive.org/web/20060502040459/http://cadafalso.deusexmachina.com.br/2006/04/21/fisl
    ²https://fotomix.wordpress.com/2011/06/04/10-j-one-liners-to-impress-your-friends/

  3. Como o que vocë disse no texto, acho este tipo de atitude radical e extremista, afasta as pessoas e não leva a nada. Quanto ao Ubuntu abandonei-o junto com o Gnome quando quiseram ficar mais parecido com OSX e perderam em liberdade de configuração e favor de “usabilidade” questionável. Hoje uso Debian, que já usa em servidores, com XFCE e desenvolvo em Mono.

  4. Concordo que hoje os cabeças do SL Brasileiro só sabem viver defendendo o movimento atrás de seus teclados, atacando as pessoas. A maior parte das discussões que vejo é que essas pessoas defendem sendo ignorantes, sem educação nenhuma. Não é com esse tipo de atitude que vamos mostrar que o SL pode ser melhor que o proprietário. Essa questão vai muito mais além de filosofias. Sobre o Ubuntu a única coisa que tenho para falar é que ele se perdeu. Acho que a essência do Gnu/Linux não é o que o Ubuntu(Canonical) vem praticando. Ele pode até está trazendo algumas novidades, mas está fazendo de forma errada, indo contra as razões iniciais ao qual o Gnu/Linux foi criado.

  5. Apesar de ter apoiado alguns movimentos como o do Open/Br/LibreOffice, Mozilla, PgSQL,…, ter sido um dos xiitas pela adoção do SL no país, vejo hj que tudo isso é bobagem frente ao valor agregado para o usuário.

    O q entregávamos, entregava VALOR para o usuário? ou era produto de nossas paixões e egos?

    Hj, vejo q temos q entregar valor para o usuário final, e para isso trabalhamos com uma pilha (lego) tecnológico. Se puder impactar positivamente usando SL, ótimo, se não, é bobagem.

    Parabéns pelo artigo, André.

  6. Perfeito o artigo. Vou começar a conhecer mais sobre OSI e me tornar partidário dessa ideia. Comecei usando Slackware em 2004 e uns anos depois mudei para Ubuntu que entregava as coisas já prontas e mais redondas, evitando ter que me descabelar a cada novo hardware, novo aplicativo, etc. Eu sou a favor do uso do Linux, e acho que quando aplicativos como Steam vem para essa plataforma se chega mais perto de se ter uma alternativa superior ao Windows. Em tempo: Uso Windows em dual boot com o Ubuntu para rodar o que não roda do Ubuntu de jeito nenhum.

  7. Concordo com a maior parte dos pontos. Acho que a semente deste radicalismo já existia lá pelos anos 2.000, no núcleo dos ativistas de SL, só não era tão visível. E sempre foi algo exclusivista e contra o que tinha algum sucesso (p.e., Ubuntu, Red Hat, etc).

    Só não entendi a opção pelo Windows 10. Não tem nada a ver com OSI e não tem a grande variedade de opções do mundo Linux.

  8. Você falou: “tanto que Alexandre Oliva, presidente da FSFLA, publicou uma mensagem na lista PSL em 2005 elogiando Carlos Morimoto e seu Kurumin”

    desculpa, mas eu entrei no link citado (http://web.archive.org/web/20070315022426/http://listas.softwarelivre.org/pipermail/psl-brasil/2005-January/000549.html)… e não achei a citação do Oliva, tudo que vi foi uma mensagem de Marco Figueiredo citado oliva no primeiro trecho do texto e depois o MARCO fazendo elogios ao Morimoto… pode me explicar, por favor?

  9. Olá André, infelizmente o seu texto possui alguns equívocos. Você parte do princípio que a opinião pessoal do Anahuac é a opinião de todos aqueles que participam do movimento software livre, e não é. Inclusive você comete uma injustiça ao dar a entender que o Oliva apoiou a campanha iniciada pelo Anahuac contra o Ubuntu quando na verdade ele não fez isso.

    Ano passado na época do FLISOL várias pessoas apoiaram a campanha contra o Ubuntu, mas esse ano o apoio foi muito menor porque a maioria dos apoiadores entenderam que o barulho feito ano passado já era suficiente e não precisávamos estender essa polêmica. Mas não apoiar a campanha contra o Ubuntu não significou que nos tornamos “pró-OSI”, apenas não queríamos mais participar disso.

    Seu outro equívoco é relacionar o software livre no Brasil ao PT. De fato, muitos participantes do movimento software livre são filiados ou simpatizantes do PT, e esse partido teve durante a gestão do Lula um papel importante no crescimento da adoção de software livre no Brasil. Mas isso não impede que outros partidos também apoiem software livre, o problema é que eles não fizeram isso. Lembro de um caso raro em que o PSDB adotou software livre na Bahia e quando o governo mudou para o PT, eles começaram a desfazer isso. Isso mostra que mesmo o PT em muitos momentos, em especial na gestão Dilma, também decepciona.

    Mas o fato de alguém ser filiado ao partido A ou B não o desqualifica de participar do movimento software livre. Podemos até discutir se essa pessoa está no movimento porque realmente acredita nisso, ou se está buscando um espaço político, mas não podemos pré-julgar alguém por suas escolhas políticas.

    Não temos que lamentar o PT ter apoiado software livre, temos é que tentar trazer outros partidos para essa mesma causa. Temos que mostrar que o PT em algum momento apoiou software livre porque eles estavam no governo federal e isso é bom. Mas que outros partidos podem continuar fazendo o mesmo seja na esfera federal, estadual ou municipal.

    Por fim, se você está deixando o movimento software livre porque “os líderes” tem opiniões equivocadas, você deveria antes analisar quem são esses “líderes”. O movimento software livre no Brasil não tem uma liderença, tem sim várias pessoas com opiniões algumas vezes diferentes, algumas vezes iguais. Mas não há sempre 100% de concordância.
    Vai de você concordar ou discordar dessas opiniões, mas novamente você se equivoca ao achar que a opinião de alguns é a opinião de todos.

  10. Opa André, tudo bom? Teu nome tem acento? Se não, desculpe. =)
    Lí seu texto e respeito sua opinião. Como o campo de comentários está aberto, vou compartilhar a minha também, ok? Vamos lá.

    Vou citar alguns trechos que possuo algum tipo de comentário a tecer.

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    “Os usuários, aliás, apenas querem usar seus computadores, com o que há de melhor e mais recente disponível, sem se importar com questões sobre licença de uso ou de filosofia.”
    O Movimento Software Livre, na MINHA opinião, não trata as vontades do usuário, sim a liberdade do software. Se o usuário liga ou deixa de ligar para um ou mais fatores referentes aos programas que ele utiliza em sua computação, na MINHA opinião novamente, é um problema do usuário e não do movimento Software Livre… diga-se de passagem, em muitos casos, se esse mesmo usuário que não está nem ai para licenças, filosofias e etc., se ligasse no mínimo de usabilidade que um sistema deveria oferecer a ele, a meu ver uma distribuição GNU/Linux seria uma escolha mais lógica que um Windows da vida… um Libre Office seria uma escolha mais lógica que o MSOffice, o Gimp uma escolha mais lógica que o Photoshop… Pois as alternativas libertárias tendem a ser mais diretas e menos secretas em suas features (que podem ou não ser equivalentes as encontradas nas opções proprietárias) do que as contrapartes…

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    “Enfim, infelizmente, a ideologia das cabeças dominantes do movimento Software Livre Brasileiro fez mais mal a esse movimento outrora promissor do que quaisquer fatores externos. Hoje, a maior preocupação dos ativistas está em rotular todos aqueles que não concordam com suas ideias como OSI, ao invés de tomar alguma ação para mudar o cenário cada vez mais restritivo que toma conta de nossa internet. Ao invés de agir, ficam atrás do teclado definindo o que é software livre, o que é OSI e quem são os seus amigos e os inimigos.”

    As cabeças que você se refere são cabeças mesmo? O movimento pelo que EU vejo não possui uma liderança formada… então se você se acha simpatizante ou mesmo ativista do mesmo e não concorda com as opiniões de um indivíduo ou grupo de ativistas, basta fazer seu ativismo com base nas suas opiniões e formas de trabalho… e sim, discutir da forma mais saudável possível com os que você não concorda… vai que seus argumentos levam a discussão para um consenso…

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    “Em muitas palestras, vários ouvintes se assustam com o fato de que Oliva e Anahuac serem “radicais”, mas radicais para quem? Coloquem um gamer profissional, que se sustenta com jogos, na roda de conversa e veremos até que ponto vai o radicalismo dos ícones do software livre nacional.”

    Eu sinceramente não entendi essa parte, só citei porque ficou bem nublado pra mim =)

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    Bom, não vou me alongar mais nesse comentário…

    Minha última parte de opinião é sobre a sua saída do movimento… e isso vale para qualquer um que se considerava parte dele e desistiu por qualquer motivo… Quem está lutando hoje de forma “ineficiente” e somente “atrás de teclados”, na realidade está fazendo o máximo que seu comprometimento permite… e a maior parte das pessoas que eu conheço que são ativistas do movimento Software Livre fazem bem mais do que ficar sentados atrás de teclados… mas, mesmo que ficassem… não é atrás de teclados que utilizamos nossos computadores e realizamos nossa computação no dia a dia?

    Eu não te conheço e não sei o que realmente te levou a essas conclusões (precipitadas talvez), mas, na minha visão, o movimento Software Livre precisa de pessoas… pessoas que discordam, que concordam, que possuam afinidades e que não possuam afinidades (entre elas e apoiem o movimento mesmo assim), porque sem isso, seria bem dificil evoluirmos…

    Toda sorte pra ti nessa nova fase… Continuarei aqui do minhas máquinas com Debian + Nouveau e Trisquel + Libreboot e falando sobre isso.

    Grande abraço.

  11. Seja muito bem vindo ao mundo dos homens e mulheres livres de fato.

    O mundo ainda tem solução! Viva a liberdade! Viva o conhecimento!

  12. Eu creio que você nunca saiu do Windows… sua experiência com o Linux foi comobum turista que vai à Índia pela primeira vez e fica tão extasiado que acha que sua vida está errada e vende tudo que tem no seu país Natal e muda-se para o paraíso e um ano depois descobre que o paraíso também tem seus defeitos e resolve voltar à sua vida patética anterior. Então eu acho que você fez o certo, voltou para onde não deveria ter saído. Felicidades.

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