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A realidade sobre a informática na educação

Durante minha graduação, fiz várias pesquisas sobre o tema Software Livre na educação. Minhas pesquisas, junto ao prof. Slomp, nos permitiram catalogar, ao todo, mais de 600 softwares e aplicativos educacionais livres, de várias áreas do conhecimento, que podem ser utilizados desde o Ensino Fundamental até o Superior. Ainda acredito que a tecnologia é uma excelente aliada no processo educacional. No entanto, bastou que eu colocasse os pés em uma sala de aula para ver que a realidade é bem diferente da Academia.



Lá no distante ano de 2.010, quando eu estava cursando Organização da Escola Básica, minha turma recebeu a tarefa de ir até uma escola estadual e fazer perguntas sobre algum aspecto da instituição. Dentre as perguntas que fiz, uma foi sobre o laboratório de informática. A resposta foi que a escola tinha um laboratório novinho, doado pela então Brasil Telecom, mas que o mesmo estava sem uso porque a Secretaria de Educação não havia designado um professor ou profissional específico para cuidar dos equipamentos. Outros meus colegas também fizeram relatos similares.


Depois, em 2.014, em um dos estágios obrigatórios, sugeri à professora titular fazer uma atividade com os alunos no laboratório de informática da escola. A professora adorou, mas ao perguntar sobre o laboratório para a coordenadora, a mesma explicou a situação: o laboratório havia sido desativado porque, há alguns meses, alunos haviam subtraído periféricos e outros itens da sala. Assim, desde então, o laboratório não era usado por ninguém.


Hoje, estou dando oficinas de reforço em Matemática em uma escola municipal de minha cidade. Uma das coisas que primeiro notei ao chegar na sala, na primeira vez, é que havia vários computadores desligados, alguns sem teclado, e perguntei à diretora se eu poderia utilizá-los.


A diretora, então, explicou que o laboratório havia sido desativado porque: os computadores tinham o sistema Ubuntu instalado e o técnico que ia lá dar manutenção não conseguiu atualizar o sistema devido ao fato de que a conexão à internet da escola ser muito instável. Em compensação, a escola recebera dois carrinhos com tablets educacionais, que poderiam ser utilizados mediante reserva.


Com isso, no mês passado, enquanto eu dava uma atividade aos alunos, uma professora chegou na sala e resolveu averiguar o estado de alguns tablets. Enquanto os alunos resolviam as questões, perguntei a ela se eu poderia dar uma rápida olhada em um dos equipamentos, ao que ela me alcançou um.


O tablet é um modelo da Positivo, com a frente preta e a traseira amarela. Ele vem com o Android 4.4 e, pelo que pude averiguar, poucos aplicativos educacionais. No entanto, ao que vi na época, eles se conectavam à Internet através da rede wi-fi da escola. Devolvi o equipamento e decidi que sua utilização seria viável, pois a presença do wi-fi permitiria a instalação de qualquer aplicativo ausente.


Ledo engano. Na última semana, fiz um planejamento para utilizar os jogos de Matemática da suíte educacional GCompris relacionados à adição e à subtração com os pequenos. Para quem não conhece, o GCompris é um software livre que vem com várias atividades pedagógicas, de várias áreas do conhecimento, para crianças de 6 a 10 anos.


Ao pegar os tablets, porém, veio a decepção: não era mais possível conectar os equipamentos à internet. No caso, havia três redes salvas nos tablets. Uma delas simplesmente não conectava; outra, dava problema de autenticação (provavelmente porque a senha havia sido mudada ou digitada incorretamente) e a terceira se chamava "Oi Wifi Fon", uma rede aberta fora da escola, mas com um bom sinal.


O problema da rede Fon é que ela só funciona com autenticação de um cliente Oi ou com a compra de passes. Conectando a esta rede, eu milagrosamente consegui abrir a PlayStore e navegar até a página do GCompris, mas ao clicar em Instalar, o download do aplicativo não era iniciado.

Como resultado, estando eu lidando com alunos de 8 e 9 anos, não tive alternativa a não ser permitir que eles explorassem os tablets, o que eles fizeram bem. Do ponto de vista deles, a aula foi excelente, mas do meu ponto de vista, a aula foi um desastre total, pois os alunos ficaram o tempo todo utilizando todos os tipos de programas e de jogos - pintura, xadrez, corpo humano e até o Soletrando -, mas nada relacionado a conteúdos de Matemática. Por isso, a menos que adotemos um discurso de subversão esquerdista que diga que "o aluno é livre para aprender o que quiser, quando quiser", o fato é que aquela aula teve aproveitamento zero.



Conclusão


Assim, apesar de muitos pesquisadores acadêmicos acharem que a tecnologia é uma grande aliada no ato educativo, a realidade de muitas escolas públicas é diferente. Dentre os principais obstáculos, podemos destacar:




  • Os computadores vêm com sistemas operacionais Linux, que são considerados complexos pelos órgãos diretivos e coordenadores;

  • Em muitos casos, não há um professor ou profissional dedicado a cuidar exclusivamente dos laboratórios de informática. Isso intimida os demais professores, que já estão dando aula há alguns anos e temem não saber utilizar ou estragar os computadores. O fato de os computadores virem com Linux aumenta este temor.

  • A falta de segurança contribui para que os dispositivos não sejam utilizados.

  • O principal obstáculo é a ausência de uma conexão à internet permanente e estável. Sem essa conexão, fica impossível atualizar os sistemas operacionais e instalar aplicativos nos tablets.


Portanto, em geral, o problema não é que as escolas públicas não possuem computadores e tablets: elas os possuem, mas estes não são utilizados, ou são subutilizados, pelos motivos expostos acima. Cabe ainda destacar que, em todos os casos, computadores e tablets são apenas dispositivos auxiliares e uma boa aula depende de um bom planejamento prévio.

Assim, apesar de ser um grande fã de assuntos relacionados à tecnologia na educação, a partir de agora as únicas tecnologias que utilizarei nas minhas aulas serão: giz, quadro negro, folhas de exercícios e, de vez em quando, algum jogo concreto e manual que esteja disponível.

Comentários

  1. Olá, André!

    Se relato reflete não apenas a realidade na rede pública como também em algumas da rede privada. Eu lembro que em 2009 ou 2010 o governo do RN entregou para cada professor um notebook com um sistema Linux e recheado de materiais didáticos para todas as disciplinas. Mas, sem recursos físicos, de pessoal de TI e treinamento para professores, não adiantou de nada tal investimento. Muitos professores simplesmente formataram o sistema e meteram o Win XP nele. :(

    Na própria escola (privada) que trabalho o laboratório de informática está desativado.

    Até mais! Um abraço!

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  2. Já estive em colégio publico para consertar laboratório no Centro de BH. O laboratório estava uma lástima. Somente windows instalado. Máquinas com virus, computadores com defeito, etc. As máquinas eram ibm-compaq. O problema não é o sistema operacional. O problema é não ter um profissional para cuidar do ambiente do laboratório. Com um profissional preparado, o professor somente precisaria passar o que ele irá precisar para poder usar o laboratório.
    Agora, computador quebrado, peças roubadas, etc significam o baixo nível moral que temos.
    Estou citando aqui uma visita de 2006.

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  3. Concordo plenamente. Na minha escola acontece o mesmo ou pior. Existem PCs nas salas mas não funcionam. Temos de andar "carregados com os nossos computadores

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  4. Vamos mudar essa realidade? Tenho uma ideia para mudar essa situação, me procurem valter.jr@gmail.com

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  5. O Linux não é um problema. A preguiça sim.

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  6. Percebo que o quesito interface e usuário foi considerado o principal problema, mas acredito que seja por falta de conhecimento. Existem várias distribuições linux voltadas para ensino, e o melhor de tudo open soucer. O próprio linux educacional foi considerado até mesmo por leigos como a melhor plataforma de ensino. Então o que é umpouco de vontade e treinamento dos docentes se for o caso

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