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FISL 18 e o declínio do Software Livre no Brasil

Há alguns dias, fui surpreendido ao ver a notícia de que o FISL 18 havia sido adiado na capa do BR-Linux. Outra surpresa maior veio quando acessei o site do evento e vi uma página simples, sem qualquer profissionalismo, avisando do adiamento do mesmo, como se fosse a página de um site em manutenção.



Página inicial do FISL 2018.


É realmente triste ver que um evento de importância ímpar, como o FISL, chegou a esse ponto. No entanto, se fizermos uma análise crítica dos antecedentes, deixando de lado todos os fanatismos e as predileções, entenderemos exatamente o porquê disso ter acontecido e qual é a solução para esse problema.


O FISL nasceu no ano 2.000, sendo um evento de caráter acadêmico e científico, de caráter anual (Wikipédia, 2017). Dada a época em que surgiu - em que um acesso permanente e estável à internet e a um sistema operacional diferente do Windows eram raros no Brasil - podemos considerar seu crescimento como um milagre - principalmente pelo fato de que, desde seu início, o FISL sempre se manteve em Porto Alegre e, mesmo assim, conseguiu atrair participantes e palestrantes de todos os cantos do Brasil e até do exterior.


Mas se o evento tinha tudo para dar certo - e, de fato, deu por um longo período - o que foi que deu errado?


A resposta talvez esteja no relatório Open Source no Brasil: Crescendo apesar das barreiras, de Andy Oram, que pode ser obtido gratuitamente no site da O'Reilly (após um breve registro).  documento, de apenas 28 páginas, diz que a ascensão do software livre na América Latina, durante os anos 2.000, acompanhou o crescimento de regimes de esquerda no mesmo período, não apenas no Brasil, mas também em países como Venezuela, por exemplo. O autor cita que:




O início dos anos 2000 assistiu às aclamações públicas extravagantes em favor do software livre na América Latina. Em setembro de 2004, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reafirmou sua postura de esquerda ao prometer adotar o uso de software livre nas instituições governamentais. Uma declaração similar foi feita pelo congresso peruano no começo dos anos 2000, que resistiu à forte oposição da Microsoft. O Brasil também se posicionou cedo neste cenário, quando o PT, liderado pelo Presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva, assumiu o desafio em prol do software livre depois de tomar posse em 2003. Para receber o apoio do governo brasileiro, programadores de software livre trabalharam junto de afiliados do partido e com empresas de computação com ampla operação no Brasil, tais como a Sun Microsystems, a IBM e a Red Hat.


É certo que a comunidade brasileira de software livre se beneficiou do apoio governamental por alguns anos. O aval do PT chamou a atenção para as conquistas da comunidade e trouxe mais negócios para ela. O FISL (Fórum Internacional de Software Livre), que foi lançado originalmente com o auxílio do governo do estado do Rio Grande do Sul, começou a ter o respaldo do governo federal. Muitos administradores do governo participaram e palestraram no Fórum, e o próprio Presidente Lula fez uma apresentação no FISL de 2009. (ORAM, 2016, p. 8)



Com isso, o movimento de software livre se beneficiou bastante dos governos de esquerda e o maior exemplo disso foi o próprio FISL que, com o apoio do governo federal, de um simples e descompromissado fórum local em Porto Alegre, se transformou em um evento internacional, patrocinado por gigantes da tecnologia e por empresas estatais. Ou seja, o FISL cresceu demais, mas não tinha as suas bases fortes e confiou principalmente em um único parceiro: o governo do PT.


O mesmo autor, mais adiante, diz que:




Vários dos meus correspondentes revelam que o atual transtorno com corrupção pôs fim ao interesse do governo no open source. De acordo com Luciano Ramalho, a renúncia forçada do líder do PT no governo, José Dirceu de Oliveira e Silva, em 2005, junto com a dissolução total de sua equipe, foi um golpe particularmente severo, visto que Dirceu estava encarregado desta conversão ao software livre. Àquela altura, segundo Marques e Gobbi, devido às suas associações e financiamento, a opinião pública tendeu a associar o open source com o PT, e assim o open source foi prejudicado pelos escândalos de corrupção. (idem, ibidem, pp. 9 - 10)



Assim, como o movimento do software livre no Brasil teve uma forte associação com o PT, quando foi descoberto que esse partido estava envolvido em vários escândalos de corrupção, o software livre e o open source passaram a ser mal vistos. Somando-se isso à crise financeira que, desde o final de 2.014 assola o Brasil, diminuíram os investimentos no evento, principalmente de empresas estatais.


Eu já participei duas vezes do FISL - sendo uma como palestrante - e pude perceber uma leve decadência na qualidade do evento, principalmente quando o mesmo começou a dar espaço à pseudociência. Além disso, cabe comentar que a edição do ano passado, na qual palestrei, estava bem menor do que a do ano retrasado, com todas as palestras organizadas em salas num corredor do salão de atos da PUCRS, com a maior parte deste reservada aos expositores, o contrário de 2.015. Aliás, antes desse evento, uma fonte confiável já havia me dito via Twitter que os recursos da ASL estavam críticos.


A edição de 2.016 foi bem menor do que a de 2.015 porque várias empresas estatais, como o Banco do Brasil, que costumeiramente patrocinam o evento, restringiram sua verba. Logo, podemos citar como principais causas da situação atual do FISL a excessiva dependência de patrocínio de empresas estatais, que estão operando em regime de contingência devido à crise, e a associação do movimento de software livre a regimes de esquerda que, atualmente, são mal vistos na sociedade por estarem associados à corrupção.


Portanto, está claro que o modelo atual do FISL não é mais sustentável e, para que o evento possa se reerguer, urge que seus organizadores busquem patrocínio da iniciativa privada e desvinculem-se da imagem de movimento de esquerda ou de algo associado ao Governo. Em outras palavras, a ASL precisa se adaptar, senão esse evento icônico da capital gaúcha e do resto do país corre o risco de virar História.


Aproveite e leia também esta análise do software livre no Brasil, feita pelo Leandro França de Mello.

Comentários

  1. Somente discordo dessa sua associação ao esquerdismo. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Lula usou o software livre como iniativa tecnológica para desbancar o monopolismo da Microsoft e também saber que a Microsoft dá respaldo para "malwares" roubar seus dados e mandar para órgãos de investigação americanos. O que está acontecendo com o movimento do software livre, o Stalmann já tinha previsto: Estão confundindo LIVRE com GRÁTIS. O software não necessariamente LIVRE precisa ser GRÁTIS. Infelizmente a nossa cultura é assim. Acredito que a pseudociência, seria um novo leque de explorar novos conhecimentos. Eu curti aos montes! O que deu problema infelizmente é essa recessão horrível que assola o país.

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  2. O declínio do FISL não tem relação com o declínio no software livre no Brasil. Os movimentos continuam, as comunidades crescem, outros eventos ganham visibilidade. O problema do FISL é um caso pontual, de alta dependência de políticas públicas, mais do mesmo e falta de visão. Daí a dizer que o software livre no Brasil morreu há uma grande lacuna.

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