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Vivendo em um país dominado pelo software livre

Fala, pessoal!



Estou vivendo, há dois anos, em GNUtopia, um novo país que surgiu em 2023 na América Central. Vocês estão lendo isso graças a uma nova tecnologia que desenvolvemos, pela qual conseguimos inserir textos em versões antigas de websites em tempo real. Muitos dos ataques de defacement noticiados pela mídia são, na verdade, testes dessa tecnologia que deram errado.


Eu vim para cá pois a vida no Brasil ficou insustentável. Na verdade, o grande ataque cibernético de 2019, que derrubou a internet inteira por uma semana, era uma distração para o futuro ataque nuclear aos EUA e à Europa. Após esse trágico evento, as liberdades individuais na maioria dos países foram revogadas e, somada à crise financeira, a vida ficou muito difícil. Com isso, várias nações alternativas começaram a aparecer e eu, como entusiasta dos softwares livres, resolvi me mudar, junto a com alguns amigos, para GNUtopia, construída sob os pilares do movimento do software livre original. O país, na verdade, é uma pequena ilha na América Central, maior do que alguns poucos campos de futebol. O lugar é tão pequeno que ele possui apenas uma cidade, dividida em vários distritos, cada um administrado por um Diretor. O clima é agradável e quase todas as ruas são arborizadas. Quase não há carros: muitos preferem ir para o trabalho a pé ou de bicicleta.


Na ilha, convencionou-se que Richard Stallman, pai do movimento original, e que desapareceu misteriosamente após os ataques, seria seu eterno presidente. Assim, o lugar é administrado por uma entidade chamada de A Fundação, que toma as decisões e decide os rumos do país em seu nome, com base no material que ele deixou escrito. Na verdade, é fácil perceber várias fotos de Stallman coladas e pintadas em muros e em fachadas de prédios. Em todo dia 16 de março, data de seu nascimento, a nação festeja seu legado. A carga tributária é extremamente baixa e os salários permitem à maioria de seus habitantes não apenas viver com dignidade, mas também se divertir sem culpa.


Ao chegar, tive a impressão de que GNUtopia era um país socialista, mas logo os habitantes do lugar me advertiram que eu estava enganado: GNUtopia é, na verdade, quase uma anarquia, em que toda a população está sujeita a uma meritocracia: quanto mais trabalho de qualidade você produzir, mais você ganha e melhor é o seu status social. Por isso, nas regiões mais afastadas do centro do país se formaram guetos ocupados por pessoas que não tiveram um bom desempenho em sua vida escolar ou acadêmica. Às vezes, é possível ver algum revirando as latas de lixo.


O país não possui uma religião oficial, sendo que uns 80% da população não é adepta de qualquer uma. Na verdade, existem algumas poucas igrejas cristãs, mas elas estão cada vez mais vazias. Também não temos um idioma oficial, embora a maioria da população fale inglês e em alguns distritos predominem falantes de outros idiomas. Eu estou em um apartamento no distrito G-7, onde há vários portugueses, brasileiros e angolanos.


Algo interessante que notei é que, apesar das bicicletas, a população do país é um pouco obesa, pois poucos curtem fazer exercícios físicos regularmente. O “esporte” preferido do pessoal é encontrar e corrigir bugs em códigos de softwares livres. Na verdade, o forte de GNUtopia é a educação. Por aqui, as crianças aprendem a programar desde o primeiro ano do Ensino Fundamental e há um forte incentivo ao pensamento crítico, cético e científico durante toda a vida escolar. O sonho de quase todos os estudantes é ingressar na Universidade Richard Stallman, onde estão os maiores cérebros do país. Foi nessa universidade que fui convidado a trabalhar, dando aulas de Cálculo.


Ao contrário das universidades no Brasil, aqui os cursos acadêmicos não possuem qualquer sistema de créditos ou de pré-requisitos: uma vez aceito na Universidade, o aluno é livre para cursar o que quiser, quando quiser. Por isso, não é incomum saber de alguém que entrou para fazer uma faculdade, mas se formou em outra, ou até mesmo que conseguiu se formar em duas ao mesmo tempo. Algo interessante é que todos os livros didáticos daqui são digitais, gratuitos e de livre distribuição, sendo escritos pelos próprios habitantes.


A ideia de compartilhar é algo muito forte em todos os lugares daqui. Meu apartamento no distrito G-7, assim como a maioria dos outros, é apenas um quarto com um banheiro. Todos os outros lugares esperados, como sala ou cozinha, são de uso comum de todos os habitantes. A maioria dos prédios aqui possui, em média, 6 andares. Da janela de meu apartamento, posso ver as luzes dos arranha-céus de Osíris, uma outra nova nação, que surgiu pouco tempo depois de GNUtopia, quase ao lado desta. Fico me perguntando porque não temos prédios tão altos quanto os deles, mas ninguém parece ligar para isso. Outro detalhe é que quase nenhum apartamento daqui possui um aparelho de televisão, pois a maioria do povo simplesmente não se interessa em tê-lo. O meu, por sorte, tinha um, e só pegava um único canal, mantido pela Fundação, que passava shows de artistas locais e, algumas vezes, notícias da ilha e do mundo exterior, mas estas sempre com comentários ácidos sobre como tal tecnologia externa poderia ameaçar nossa liberdade. A cultura, aqui, é muito forte, porém fechada. Raramente vemos algo de outros países, pois as leis locais relacionadas a direitos autorais não são agradáveis às outras nações.


Um fato curioso é que precisei comprar um notebook novo ao chegar aqui, pois o meu foi confiscado pela Polícia Filosófica na imigração por conter softwares e hardwares não livres. Achei estranho, pois sempre usei Ubuntu e os programas de seus repositórios, mas descobri que o governo daqui toma medidas extremas para proteger nossa Liberdade de Software. Felizmente, o pessoal da imigração me disse que essa situação era normal com os recém-chegados e me deu um vale para que eu comprasse um notebook livre ao entrar no país. Nas lojas de informática, você pode comprar um desktop ou um notebook com configurações personalizadas e escolher se deseja a distribuição Trisquel, GNewSense, Parábola ou outras recomendadas pela antiga FSF. Perguntei a um vendedor se eles não tinham algum notebook com Ubuntu e ele disse que essa distribuição era nociva à nossa Liberdade de Software, mas se ofereceu para instalar o Trisquel, que estava totalmente de acordo com os preceitos filosóficos e era baseado nela. Aliás, os repositórios de todas as distribuições ficavam hospedados em servidores da Fundação, acessíveis a todos, sem custo.


Talvez vocês se surpreendam, mas a maioria dos hardwares que temos por aqui foi fabricada entre o final das décadas de 90 e de 2010. Isso porque o governo possui uma política séria contra a obsolescência programada e contra hardwares que exijam blobs binários ou que tenham dispositivos que possam ameaçar a privacidade dos usuários. Mas não pensem que os dispositivos daqui são ultrapassados: graças aos nossos talentosos engenheiros, temos drivers livres que, muitas vezes, conseguem extrair até a última gota de hardwares já considerados obsoletos.


Outro ponto polêmico é a internet. Aqui, todos temos acesso banda larga a alta velocidade, fornecido pela Fundação, e sem limite de dados. No começo, a Fundação filtrava todos os sites contrários à nossa Liberdade de Software ou que tinham scripts não livres. Isso fazia com que muitos sites famosos não pudessem ser acessados ou ficassem inutilizáveis. Segundo eles, a intenção era conscientizar os mantenedores dessas páginas sobre a importância da Liberdade, mas parece que eles não tomaram alguma atitude e, no final, a Fundação acabou bloqueando totalmente o acesso à Internet, criando uma rede alternativa, a GNUNet, que só funciona dentro da ilha. Na verdade, a GNUNet possui tudo que a Internet possui, mas em versões livres. Temos nossas redes sociais livres, nossos blogs livres, nossos sites de notícias livres. Ninguém aqui possui telefone celular ou smartphone, mas temos telefones fixos nos prédios, para alguma comunicação que não possa ser feita on line.


Como professor universitário, eu posso acessar a Internet normal de dentro do campus para realizar pesquisas. Aliás, algo estranho aconteceu: certa vez, um colega meu resolveu acessar o Facebook de dentro da Universidade, para ver como estavam os amigos. Ao invés da rede social, surgiu uma página explicando que o acesso àquele site havia sido bloqueado para proteger a Liberdade do usuário. Pouco tempo depois, a Polícia Filosófica entrou na sala e o levou para um local desconhecido. Eu não o vi mais até o final do dia.


Naquela noite, estava assistindo a algumas entrevistas antigas de Stallman no canal da Fundação, quando sem querer apertei no controle remoto e caí em outro canal, com uma recepção muito ruim. Na tela, eram distinguíveis as palavras Liberdade e Prisão, que se alternavam em vários idiomas. Uma voz robótica parecia ditar alguns números. Peguei meu notebook, abri o Emacs e comecei a anotar os valores. De repente, a transmissão foi interrompida de forma abrupta.


Fiquei olhando para os números que havia anotado e percebi que eles talvez representassem caracteres ASCII. Rapidamente, escrevi um script para tentar convertê-los. Na tela de meu computador, foi surgindo um texto em inglês sobre Liberdade de Escolha, quando alguém bateu à porta:


- Polícia Filosófica! Abra a porta!

Comentários

  1. O Anahuac é o prefeito??
    Vocês usam o Trisquel??

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  2. Putz você sô fala merda hein cara..

    ResponderExcluir
  3. O Nerd retardado que escreve esse blog deve ser uma daquelas bichas que escreve aquelas asneiras que saem da boca das madames em novelas da globo..só lixo tendencioso...

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