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Por que votar nulo não é uma boa opção?

Os ânimos políticos no Brasil estão exaltados nos últimos tempos. A cada dia, surgem novas e vergonhosas notícias de corrupção em várias partes do governo. O povo, cansado de ser explorado, não se sente mais representado por político ou por partido algum, e muitos optaram por anular seu voto na próxima eleição. No entanto, tal atitude pode ter um efeito contrário ao esperado e ajudar a reeleger os mesmos políticos de sempre. A explicação disso se deve à legislação e à Matemática.


Há alguns anos, circulou nas redes sociais um boato de que, se 51% dos votos de uma eleição fossem nulos, a mesma seria anulada e seria convocada uma nova votação, sem a participação dos candidatos anteriores (fonte). Este erro se deve a uma interpretação equivocada do Artigo 224 do Código Eleitoral, o qual estabelece que "Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias" (fonte), mas a nulidade da qual fala o artigo não está relacionada a voto nulo mas, sim, a fraudes nas eleições. Santos (2013) cita que a cassação de um candidato eleito por compra de votos pode ser um exemplo do que se refere o tal artigo.


A autora ainda diz que "os votos nulos e brancos não entram no cômputo dos votos, servindo, quando muito, para fins de estatística" (idem, ibidem). Ou seja, são votos inválidos que não entram na conta de quanto um determinado candidato precisa para se eleger. Assim, quanto mais votos nulos tiver uma eleição, mais fácil será para que algum candidato se eleja.


Como exemplo, vamos considerar uma cidade com 200 mil eleitores em que não tenha havido votos brancos e nulos para a eleição para prefeito e em que todos votaram. Para se eleger, ele precisa obter a maioria dos votos válidos. Existe uma polêmica se essa maioria representa 51% ou 50% mais 1 (fonte). Para fins de simplificação, vamos considerar a primeira opção. Tendo a cidade 200 mil eleitores, um candidato precisará obter 100.001 votos para ser eleito o chefe do poder executivo no local.


Agora, vamos considerar que 10% dos eleitores daquela cidade anulou seu voto. Essa quantidade significa que 20 mil eleitores deixaram de escolher algum candidato. Nesse caso, os votos válidos passam a ser de 180 mil e o candidato precisará obter 90.001 votos para ser eleito.


Desta forma, observamos que, anulando-se o voto, facilita-se a vitória dos candidatos favoritos, isto é, aqueles que tem mais chance de se eleger, que em geral são aqueles que já estão, eles ou seu partido, no poder há mais tempo.


Assim, a melhor forma de se protestar nessas eleições não é anulando seu voto mas, sim, votando nos candidatos que não têm a menor chance de se eleger. Dessa forma, você vota sabendo que seu candidato não ganhará e o candidato preferido terá que conseguir mais votos para sair vitorioso.

Comentários

  1. Não entendi a conclusão, pois os candidatos favoritos já serão eleitos de qualquer forma.
    Favorito é aquele que tem mais contato com pessoas influentes, o que se chama de 'estar na panelinha'. Aliado ao poder do marketing. Quanto mais propaganda, mais certeza de vitória.
    A Dilma é um exemplo de pessoa que teria muitas chances de ser presidente, quantas vezes ela quiser. A população gosta dela e é alienada. Se perguntássemos a 10 pessoas na rua o que significa "pedalada fiscal", talvez 1 soubesse.
    Ela sofreu impeachment muito mais por interesse dos seus (ex) aliados do que pela vontade popular.
    Se marchas surtem efeito, por que nunca se viu melhoria na saúde pública e em outros itens de interesse coletivo? Passeata não tem poder. É um simbolismo realizado por parte dos descontentes.

    Note que as pessoas sempre votam nos que estão ganhando nas 'pesquisas'. Aquele resultado é praticamente o mesmo após a votação.

    O segundo ponto é que anulando o voto ou votando em branco, o TSE e os candidatos tomam conhecimento, apesar de serem votos não computados.
    Ainda que seja improvável que a maioria dos eleitores vote assim, chega a ser preocupante para quem está no poder ou de algum modo é beneficiado. Até o Zé da Esquina que recebeu uma cesta básica do candidato que está na quinta colocação, não vai gostar.
    Sim, o candidato A, B ou C será eleito com mais facilidade, mas a rejeição de boa parte dos votantes continua a ser um mau sinal para os políticos.
    Poderia até contribuir para a redução do número de partidos e de candidatos. Se eu sei que não tenho a menor chance, por que me candidatar?
    E por que tantos partidos se a finalidade é o bem-comum? Bastariam dois ou três.

    Votar no candidato que tem menos chance, é como dizer que está satisfeito.

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  2. Oi Paulo, eu entendi de uma forma diferente, vou explicar:
    Existe no Brasil a ideia de que anular um voto é frequentemente entendido como uma forma de protesto, como se o eleitor estivesse fazendo uma crítica aos políticos ou algo similar a uma negação da forma como se faz política no Brasil.
    Porém o que a legislação eleitoral considera para os aspectos da contagem dos votos: os eleitores que anularam seus votos não fazem parte dos votos válidos (claro, anular é o oposto de validar). Logo, são considerados apenas os votos válidos.

    A conta dos válidos é o que se conhece por 50% + 1 (o mesmo que dizer qualquer número imediatamente superior a metade dos votos).
    Os votos que são anulados não são contabilizados dentre os válidos. Com uma menor quantidade de votos válidos a proporção de cada voto válido tem mais "peso".

    Entenda a situação com esse exemplo: um eleitor que possui acesso aos veículos de comunicação, que lê, que sabe interpretar texto, têm poder de crítica, observa os fatos recentes que ocorrem na política brasileira e facilmente se decepciona com a situação. A atitude mais natural é uma decepção muito grande e isso faz com que muitos queiram não se comprometer com isso, mas são obrigados à votar! Então vão às urnas e anulam seus votos (imaginando isso como uma forma de protesto).
    Outro cidadão brasileiro com menos oportunidades de acesso aos veículos de comunicação, letramento incipiente/analfabeto, sem condições de crítica, de dissimulação de fatos, tem maior facilidade em ser persuadido por àqueles que usam de um "marketing eleitoral" eficiente para angariar votos dessas pessoas. Vai lá e valida seu voto no candidato que tem bom marketing eleitoral (ou pior, de compra de votos), mas nem sempre a melhor estratégia para governar uma cidade/estado/nação.

    Logo, nesse caso o brasileiro que têm mais condições de avaliar um bom candidato anula seu voto e, com isso, torna mais forte o voto de outro brasileiro mais suscetível a eleger um mal candidato.


    Agora, me parece que há um erro no texto:
    " Tendo a cidade 100 mil eleitores, um candidato precisará obter 100.001 votos para ser eleito"

    O correto seria "Tendo a cidade 200 mil eleitores"

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  3. Só para ilustrar a explicação:

    Em 2014, O governador do Rio de Janeiro foi eleito em segundo turno onde o grupo de eleitores que se absteram de votar ou votaram em branco ou votaram nulo formaram a maioria.

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