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Por que, como professor, sou contra as cotas raciais

Um debate que está muito em voga atualmente é o das cotas raciais nas universidades. Apenas mencioná-lo já é motivo de polêmica, principalmente na sociedade brasileira atual, em que os ânimos políticos estão cada vez mais exaltados. Hoje, se você se declara contrário às cotas raciais, você é tachado de racista; se diz ser contra o feminismo, é machista; se reclama de algo feito por um homossexual, é homofóbico e por aí vai.


Como professor (quase) formado por uma das mais tradicionais universidades federais do Rio Grande do Sul, e tendo vivido de perto a realidade universitária, hoje posso afirmar com toda a certeza que sou contrário às políticas de cotas raciais porque elas, além de não serem a solução do problema, agravam ainda mais a situação.



Joaquim Barbosa. Fonte: https://2.bp.blogspot.com/-MkMztX5yG20/UqNpABbsE3I/AAAAAAAABdo/1GIeU7As52Q/s400/cotas.jpg


Embora eu fale a respeito da UFRGS, minha opinião é genérica em relação às demais universidades públicas.


Grande parte da opinião pública acredita que o sistema de cotas seria a resposta para um sistema de ingresso universitário injusto e ineficaz. De fato, basta ver que, há poucos anos, alguém que passasse em frente ao campus central da UFRGS veria apenas carros do ano em seu estacionamento, o que denunciaria que grande parte dos alunos da universidade federal e gratuita teriam condições de pagar um curso em alguma universidade particular e, desta forma, estariam "tirando a vaga" de quem não as possui. Isso é um fato e é inegável e indiscutível que o sistema de cotas ampliou o acesso ao mundo universitário nas últimas décadas. No entanto, há um detalhe que muitos dos defensores das cotas se esquecem ao fazer seus argumentos.


O tal detalhe é que, uma vez aprovado no concurso vestibular, o aluno cotista da UFRGS é tratado como qualquer outro que esteja por lá. Em outras palavras, dentro da universidade, ele não vai participar de uma turma especial, não vai ter um professor especial e tampouco vai fazer avaliações especiais. Não, ele vai estudar junto aos demais e vai fazer as mesmas atividades propostas.


Esse é o motivo de por que as cotas não são a solução dos problemas. O fato é que muitos estudantes cotistas simplesmente não estão preparados para o ritmo de uma universidade federal, como a UFRGS. Apesar de esta universidade possuir um programa de ações afirmativas, nenhum aluno é obrigado a participar dele. Doebber (2012), cita que "as dificuldades de ordem prática adquirem tanta força que os estudantes acabam por não verem outra saída senão abandonar o curso", o que contradiz, ao meu ver, o próprio propósito das políticas de cotas raciais. No mesmo artigo, a pesquisadora cita que muitos alunos cotistas não se identificam com a Comgrad de seus cursos. Um professor da Comgrad do curso de Engenharia Elétrica diz, nesse artigo, que o programa de ações afirmativas nunca havia sido discutido e que " a nossa política é tratar todo mundo igual. Essa é a política" (idem, ibidem).


De fato, se formos analisar as médias dos primeiros e dos últimos colocados no último concurso vestibular dessa universidade, veremos uma grande discrepância entre os alunos ingressos por acesso universal e por algum sistema de cotas. Em Medicina, o curso mais concorrido, o primeiro colocado do concurso 2016 atingiu 739,84 pontos e, o último, 652,74. Entre os cotistas de baixa renda egressos do ensino público, esses números são 606,43 e 581,99, respectivamente. Já para os afrodescendentes de baixa renda, egressos do ensino público, temos 541,20 e 516,12. Situação similar ocorre em todos os outros cursos.


Logo, aí está a verdadeira causa da injustiça social. A triste verdade é: o que o aluno estudante da escola pública aprende em seu ensino médio está, simplesmente, anos luz aquém daquilo que é exigido como conhecimento básico em uma universidade federal. O aluno cotista até poderá passar no vestibular, mas talvez não esteja preparado para ter de 6 a 8 matérias por semana, ter de se deslocar por metade de uma cidade para ter matérias em faculdades diferentes no mesmo dia e, principalmente, acompanhar o ritmo frenético de estudos, que chega a consumir livros de quase mil páginas em pouco mais de quatro meses. Um aluno que sempre tirou 10 em Matemática durante o ensino médio por decorar fórmulas provavelmente não estará preparado para fazer uma rigorosa demonstração lógica e formal ou entender, em um primeiro momento, os conceitos de limites, de derivadas e de integrais.


Outro aspecto, também citado por Doebber, é que há um preconceito velado dentro do meio universitário para com os alunos cotistas, o que faz com que eles acabem se isolando do resto da comunidade acadêmica. Isso aumenta ainda mais o problema, pois além de ampliar o preconceito, também pode prejudicar os estudantes em suas jornadas de estudo, pelos motivos supracitados.


Logo, sou contra o sistema de cotas para qualquer coisa. A solução para a igualdade de acesso nas universidades públicas não se dá por criar um sistema de ingresso especial, que acaba abandonando o aluno uma vez que ele esteja dentro do mundo universitário. A solução não é adaptarmos a universidade, mas termos um ensino público de qualidade, que seja capaz de ensinar ao aluno o que é exigido pela academia. Desta forma, ninguém precisará de entrar no mundo acadêmico por cotas; todos concorrerão na igualdade e os melhores serão recompensados.

Comentários

  1. Parabéns pela apresentação dos fatos.
    Concordo plenamente.
    A solução é melhorar o ensino até o ensino médio. Desta forma todos entrariam "pela porta da frente".
    Além de tudo o explanado, temos que lembrar, que de acordo com o artigo 5. da Constituição... "Todos somos iguais perante a lei"... portanto cotas raciais ou de qualquer natureza, são INCONSTITUCIONAIS.

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