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Por que odiamos o novo padrão brasileiro de tomadas?

Desde 2010, o Brasil conta com um novo padrão de plugues e de tomadas. Dada a diversidade de conectores existentes em nosso país, é quase um consenso de que já estava na hora de estabelecermos algum padrão nacional. No entanto, a maioria da população, principalmente os entusiastas de tecnologia, odeia o novo padrão adotado. Dentre os motivos para tamanho desprezo, podemos destacar a unicidade do padrão e o fato de ele não oferecer a segurança prometida, pelo fato de não resolver o principal problema da eletricidade brasileira.



Só a gente usa isso. Fonte: https://i.stack.imgur.com/92JcC.jpg



A História mostra que o brasileiro gosta de reinventar a roda. No caso das tomadas brasileiras, elas são baseadas nas especificações IEC 60906-1, que estabelece um padrão universal de conectores. O objetivo dessa norma - que ainda não foi totalmente adotada - é que as tomadas de todos os países da União Europeia, um dia, sigam o mesmo padrão. Assim, quem viaje da França para a Alemanha não teria problemas em conectar seus aparelhos naquele país.


O padrão brasileiro é inspirado nessa norma internacional mas, não surpreendentemente, é incompatível com esta. Ou seja, na prática o Brasil é, por enquanto, o único país do mundo a utilizar esse padrão de tomadas. Essa fato causa várias inconveniências tanto para os brasileiros que importam eletrônicos do exterior quando para os visitantes internacionais que chegam aqui.


Fio terra. Fonte: http://www.decodeunicode.org/en/data/glyph/196x196/23DA.gif


O maior argumento para a adoção do novo padrão seria sua maior segurança, mas esse ponto é amplamente discutível. O fato de o novo padrão ter a tomada recuada, evitando que se toque diretamente na parte elétrica, poderia ser facilmente adaptado no modelo anterior e o fato de a nova tomada oferecer aterramento é algo amplamente ignorado pela população.


Desde 2006, é obrigatória a presença do aterramento em todas as construções prediais e residenciais. No entanto, é fácil perceber que a maioria das construções em nosso país, principalmente as localizadas nos subúrbios, nas regiões metropolitanas das capitais e no interior dos estados, é antiga, tendo sido construídas na década de 1960 ou antes e, portanto, não possuem esse item de segurança. Não é necessário dizer que a adaptação da instalação elétrica nessas residências, principalmente nos dias de hoje, seria algo caro, além do orçamento da maioria de seus ocupantes e, por isso, a maioria opta por não fazê-lo.


Aliás, o brasileiro, sempre criativo, encontra seu famoso "jeitinho". Quando deparado com a obrigatoriedade de trocar ou de instalar uma nova tomada, a maioria dos responsáveis pelas instalações elétricas - normalmente o dono da casa - conecta os fios neutro e fase e deixa o conector do terra sem fio algum, anulando, desta forma, toda a suposta proteção oferecida pela nova tomada. Isso, é claro, quando o brasileiro, ao invés de trocar a tomada, não resolve serrar o pino terra dos aparelhos, comprometendo sua segurança, por achar essa solução errada mais fácil.



Mas o novo padrão de tomadas não resolve o maior problema de segurança das instalações elétricas do nosso país, que é o de evitar que um aparelho 127V seja conectado em uma tomada 220V ou vice-versa.


Tensões utilizadas no mundo. Fonte: https://www.suntransformer.com/images/WorldwidePowerStandards.jpg


O Brasil é um dos poucos países do mundo que utiliza dois níveis de tensão oficiais: 127V e 220V (sem contar algumas instalações antigas de São Paulo que utilizam 115V e algumas rurais, do programa Luz para Todos, que utilizam 254V.) A maioria dos países desenvolvidos utiliza apenas um nível de tensão.


Pelo mapa acima, pode-se ver que a maioria dos países da América do Norte, da América Central e do norte da América do Sul utilizam 110V; a maioria dos países europeus, asiáticos, africanos e so sul da América do Sul utiliza 220V (na verdade, a Europa utiliza 230V e alguns países da África, 240V).


Essa despadronização da tensão elétrica no Brasil tem sua origem na característica falta de planejamento das políticas públicas em nosso país. Conforme explica esse artigo, o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a fazer experimentos com eletricidade, ainda no século XIX. No entanto, a falta de preocupação do governo com a padronização deu margem para a colcha de retalhos que vivemos hoje: em alguns estados, chegavam firmas dos EUA e implantavam uma rede 110V; em outros, chegavam firmas europeias e colocavam seus 220V. Deu no que deu. Bastava D. Pedro II ter promulgado uma lei, um decreto ou qualquer coisa do tipo padronizando a tensão elétrica e hoje o problema estaria resolvido. Claro que ele não fez isso.


Outro problema é a frequência. Somos um dos únicos países do mundo que utiliza uma tensão de 220V a 60Hz, característica das tensões de 110V. A maioria dos países que utiliza tensões de 220V, como os europeus, os asiáticos, o Uruguai,  a Argentina, o Chile e o Paraguai, utiliza a frequência de 50Hz. Nós somos diferentes e o resultado é que a usina de Itaipú, feita em conjunto com Brasil e Paraguai, precisa converter a energia paraguaia, de 50Hz, em corrente contínua para, depois, reconvertê-la em corrente alternada a 60Hz, em Ibiúna. O artigo citado anteriormente diz que houve várias tentativas de o Brasil adotar os 50Hz, mas devido a pressões comerciais e ao completo descaso do povo para com as leis, acabamos adotando os 60Hz. Se adotássemos a mesma frequência dos países fronteiriços, toda a geração de corrente contínua seria desnecessária e, assim, a geração de energia seria mais barata.


A solução, então, seria trocar a tensão e a frequência do Brasil para 220V, 50Hz. É algo caríssimo, mas não impossível. Desde 2010, a Arábia Saudita está trocando a tensão de seu país de 110V para 230V a fim de se integrar ao resto dos países do Golfo. É um processo de 25 anos, que poderia ser adotado em nosso país.


A maioria dos países que adota 110V utiliza tomadas com conectores chatos e a maioria dos países que adota 220V, redondos. Nosso padrão de tomadas foi feito para ser usado em redes 220V, mas aqui também é usado em redes 110V e, sabendo-se que muitos estados e estabelecimentos como hotéis e faculdades possuem as duas tensões, a menos que seja colada uma etiqueta ou outro indicativo visual na tomada, não é possível, apenas visualmente, saber se a tensão oferecida é de 110V ou de 220V. Em outras palavras, a nova tomada não evita que um aparelho 110V seja ligado em uma tomada 220V, exploda e machuque o proprietário.


Portanto, nossa tomada elétrica foi uma inovação desnecessária e mal feita.Já existem padrões bem mais seguros e universais disponíveis no mundo, não precisávamos de mais um.

Comentários

  1. Por favor, inexiste 110V !! Há alguns casos 115V, o resto é 120V ou 127V.
    De haver "necessidade" de aterramento "em tudo" é questionável, sou técnico da área. E gostaria de saber de "problemas" de falta de aterramento em algo que não seja chuveiros, aquecedores de água em geral e algo específico com carcaças metálicas, motores, filtragem de áudio / vídeo (nesses 2 casos o aterramento é até bem criterioso mais por ruídos). Aterramento em tudo é mais consumo de cobre também.
    Aterramento deve haver na entrada, com proteção contra surto e disjuntor DR. E nos eqptos de fato necessários.
    As normas muitas vezes são feitos por bur(r)ocratas em vez de alguém da área, com fundamentação científica. "Deve-se aterrar tudo". A tomada deve ser "beeem profunda" para evitar choques (e acaba facilitando mal contato...).
    Aliás, da profundidade das tomadas é um enorme exageiro.
    Lembrando do aburdo também de haver tomadas domésticas de até 20A. Deveria ser limitado a máximo uns 8A contínuados (aprox 1000VA em 127V). As pessoas muitas vezes plugam e desplugam tomadas com carga, não devendo haver domésticas para altas correntes portanto.
    Se fosse passado para 220V (ou 230, 240) haveria menor corrente para mesma potẽncia, podendo usar menor bitola de cabos.

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  2. Por favor, inexiste 110V !! Há alguns casos 115V, o resto é 120V ou 127V.
    De haver "necessidade" de aterramento "em tudo" é questionável, sou técnico da área. E gostaria de saber de "problemas" de falta de aterramento em algo que não seja chuveiros, aquecedores de água em geral e algo específico com carcaças metálicas, motores, filtragem de áudio / vídeo (nesses 2 casos o aterramento é até bem criterioso mais por ruídos). Aterramento em tudo é mais consumo de cobre também.
    Aterramento deve haver na entrada, com proteção contra surto e disjuntor DR. E nos eqptos de fato necessários.
    As normas muitas vezes são feitos por bur(r)ocratas em vez de alguém da área, com fundamentação científica. "Deve-se aterrar tudo". A tomada deve ser "beeem profunda" para evitar choques (e acaba facilitando mal contato...).
    Aliás, da profundidade das tomadas é um enorme exageiro.
    Lembrando do aburdo também de haver tomadas domésticas de até 20A. Deveria ser limitado a máximo uns 8A contínuados (aprox 1000VA em 127V). As pessoas muitas vezes plugam e desplugam tomadas com carga, não devendo haver domésticas para altas correntes portanto.
    Se fosse passado para 220V (ou 230, 240) haveria menor corrente para mesma potẽncia, podendo usar menor bitola de cabos.
    (obs: deu erro, 'time out" e "repetido").

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  3. Puxa, essa dos 50Hz eu não sabia! Mas eu gosto do padrão, claro que eles não fizeram a tomada diferente dos estados que usam 110 por questão de custos, mas creio que ficasse barato colocar uma cor (ou outra marcação visual) nas tomadas que oferecem 110, para diferir das que oferecem 220, e tb diferenciar os plugs de equipamentos que funcionam automaticamente em qq voltagem, diferenciando os que precisam de intervenção manual para definir a voltagem de trabalho.

    Mas eu acho que uma ideia tipo essa, seria descartada pois geraria confusão e complexidade. Um viajante, que não esteja no mundo da lua, sabe que normalmente o sul do Brasil é 110 e o norte é 220.

    Pena que o padrão ficou diferente do original IEC 60906-1, ainda vou pesquisar o pq. Mas tb não há um consenso e creio que nunca haverá, sempre vai precisar que alguém bata o martelo ou nunca se tomará decisão alguma. Alguns dizem que o padrão da Alemanha é melhor (mais é bem mais caro) e outros elogiam o padrão inglês e certamente muitos iriam querer que adotássemos o padrão dos EUA mesclado com o padrão anterior Europeu, que estava ficando muito comum e para mim era um padrão de fato quando a tomada tinha o pino para o terra, ou seja, 2 pinos Europeu + 2 EUA + terra EUA = 5 buracos para os pinos, sendo é claro que no máximo os plugs teriam 3 pinos.

    Eu acho que o problema foi que os Europeus divergiram nessa matéria dos 3 pinos e o governo brasileiro não quis pagar pau para o EUA, como não tinha um padrão europeu forte, adotou um parecido ao que seria um Europeu do futuro.

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  4. Para ler uma opinião a favor do novo padrão e fazer o contraditório com o presente texto:

    http://dicasdozebio.com/2012/09/19/porque-e-bom-o-novo-padrao-nbr-de-plugues-e-tomadas/

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  5. Realmente. Se ao menos todos os países da América do Sul ou, pelo menos, do Mercosul adotassem esse padrão novo, já seria alguma coisa.

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  6. Esse padrão Brasileiro é muito bom em relação a segurança. Principalmente se alguma criança colocar o conector na tomada ou tirar, muito difícil de tomar choque. Os outros conectores são muito inseguros nisso, e o risco da criança tomar choque é grande!
    Em geral, acho que o Brasil tomou uma iniciativa muito grande e nós temos que impor nossos padrões, pois outros países como EUA, Europa, etc CRIAM e IMPÕEM padrões (Exemplo: Programação de computadores em língua inglesa, a famosa codificação ASCII e o UTF tem que ter retrocompatibilidade com esse ASCII).
    Ter duas voltagens (110V e 220V) não acho totalmente ruim e nem totalmente bom. Mas a vantagem é a segurança, pois tomar um choque 110V (eu já tomei) é "melhor" do que tomar um choque 220V e ter uma parada cardíaca e ir para o outro mundo. E também, custos, pois usar 110V é um fase só, e aí a conta pode vir mais barata.
    Na Europa e EUA fazem sentido usar 220V porque como são países gelados, eles usam constantemente aquecedores, torneiras elétricas, etc que funcionam bem com 220V (pois um chuveiro de 110V não esquenta bem). Aí nesse caso, faz sentido eles usarem como padrão 220V!

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  7. Olá, André, gostaria de entrevistá-lo, poderia entrar em contato comigo por favor? Muito obrigada!

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