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Os ativistas brasileiros de software livre colocaram a carroça na frente dos bois

Este artigo não representa mais minha visão sobre o software livre e está sendo mantido aqui apenas por razões históricas. Para minha visão atual, veja este artigo.


Mais um ano começa e, de novo, temos de encarar a ladainha dos ativistas brasileiros de software livre (ou melhor, do ativista brasileiro de software livre) sobre o fato de que eventos voltados ao tema, como o Flisol, não devem instalar a distribuição Ubuntu pelo fato de a mesma não estar alinhada à filosofia da FSF e promover aplicativos e serviços proprietários. Tudo isso seria lindo e nobre se não fosse por um detalhe: os ativistas colocaram a carroça na frente dos bois.



Carroça na frente dos bois. Fonte: http://www.inglesnosupermercado.com.br/wp-content/uploads/2011/04/n%C3%A3o-ponha-o-carro-antes-dos-bois-never-put-the-cart-before-the-horse.jpg


Analisando-se a questão de um ponto de vista estritamente lógico, formal e coerente, veremos que os ativistas estão cobertos de razão: não há motivos para que um evento voltado ao software livre, como o Flisol, promova a instalação e a divulgação de sistemas ou de programas que não sejam software livre. Seria o mesmo que alguém ir a um encontro de ateus querendo pregar a palavra do Senhor. Assim, por esse ponto, os eventos como Flisol, FISL e outros do gênero, deveriam instalar e promover apenas programas e sistemas que fossem estritamente software livre. No entanto, há um minúsculo detalhe que passou despercebido:



O Brasil escolheu o Windows!


Por mais que os ativistas odeiem admitir, o fato é que a maioria dos usuários de computador brasileiros escolheram o Windows como seu sistema operacional principal ou único.



Como se pode ver no gráfico acima, 90,61% dos desktops brasileiros estavam usando Windows no mês passado, contra apenas 1,71% das várias distribuições de Linux (veja você mesmo aqui.) Até mesmo no mundo mobile, o sistema da Microsoft está vencendo, como apontam várias matérias de sites especializados, como esta.


Podemos citar vários motivos como justificativa para essa situação, mas o que fica claro é que os usuários brasileiros querem usar programas e sistemas de qualidade, que atendam às suas necessidades e que custem o menos possível - de preferência, de graça. Isso ficou claro quando a Polícia Federal fechou o Mega Filmes HD e a internet brasileira veio abaixo, criticando a atitude da PF, com a justificativa de que os administradores apenas estavam levando "alegria" à população. Isso sem falar nos fracassados programas de inclusão digital promovidos pelo Governo Federal na década passada, onde eram vendidos computadores populares com distribuições de Linux e cuja primeira coisa feita pelo dono era substituir o sistema livre por uma versão "alternativa" do Windows XP.


Quando, no final do ano passado, o serviço proprietário WhatsApp foi bloqueado por alguns dias devido a uma ordem judicial, mais de um milhão e meio de usuários brasileiros migraram para a alternativa livre Telegram. Isso não aconteceu devido a uma repentina crise de consciência que levou à conversão do software livre mas, sim,porque o serviço preferido não estava disponível. Provavelmente, após o desbloqueio do mensageiro verde, o azul foi totalmente esquecido pela maioria dessa multidão.


Outro ponto é o famigerado mercado de trabalho: embora o software livre tenha um lugar de destaque na educação, no meio acadêmico, nas pesquisas e em servidores - sendo que muitas lojas estão adotando-o como sistema para PDVs, por exemplo -, a maioria das vagas de nível técnico exige conhecimento em Windows. Logo, para a maioria das pessoas que tem um emprego mais "comum", a escolha é: saber Windows ou ficar desempregado.


Homem gritando em um megafone. Fonte: http://f3nation.com/wp-content/uploads/2014/12/megaphone1.jpg


Com isso, eu enxergo os ativistas nacionais de software livre como pessoas raivosas, gritando em um megafone no meio de um deserto, onde ninguém pode ouvi-las. Indo para o lado matemático, os ativistas representam uma pessoa, em uma multidão de 1.000 pessoas, falando para outras 16 pessoas. As demais 983 pessoas estão ignorando solenemente todos os apelos emocionados que aquele cidadão está fazendo.


Mas por que o Brasil escolheu o Windows? Porque ele atende às necessidades da população e tem os programas e jogos que eles querem ou precisam. Os ativistas, ao invés de tentar enfiar uma filosofia na cabeça das pessoas, deveriam incentivar os usuários com conhecimentos mais avançados a desenvolverem novos programas e a melhorarem os já existentes a fim de atrair mais usuários para os sistemas livres.


Com isso, concluímos que os ativistas brasileiros de software livre colocaram a carroça na frente dos bois. A luta pela coerência dos eventos de software livre em evitar usar, instalar ou divulgar programas ou sistemas não livres é válida, mas isso deveria ser feito em um momento posterior. A prioridade seria falar do software livre para aqueles 90% que ainda usam Windows a fim de que eles migrassem, por livre e espontânea vontade. Do jeito que as coisas estão, esses ativistas estão fazendo um desserviço e ajudando a aumentar a maioria já consolidada.


Muitos, ao lerem esse texto, devem estar pensando que, com ele, regredimos vários anos na discussão do software livre. Errado. O fato é que nunca evoluímos de verdade.

Comentários

  1. As estatísticas sobre o uso de sistemas operacionais no Brasil são diferentes das estatísticas de outros países? Os ativistas e o movimento software livre no Brasil podem ser comparados com outros países?

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  2. Tenho que concordar com o autor. Criticar o Ubuntu agora é uma piada quando o maior adversário é o Windows. Digo mais: como sugestão tática talvez fosse interessante focar nos usuários Mac, afinal esses já usam um Unix e já fugiram pelo menos do padrão Unix.

    Lembro que há uns 8 ou 9 anos a diferença entre MacOS e Linux não era tão gritante. Porém vi o movimento de muitos usuários avançados para o MacOS. Seria interessante investigar esse movimento afim de verificar se é possível revertê-lo ou pelo menos pará-lo.

    Abraço!

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  3. Errata: Onde eu escrevi "fugiram pelo menos do padrão Unix" eu queria dizer padrão Windows.

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  4. Legal, mas... há um detalhe muito importante: acho que há 2 erros nessa matéria.
    1) os brasileiros que "escolhem" o rwindow$ são minoria; a maioria usa o que vem no computador, empurrado pelos fabricantes ou vendedores servis à m$ (ou trocam o Linux que vem por um rw$ piratex para ficar igual àquele computador antigo que está sendo substituído); Quem compra Mac está, sim, optando (mesmo que em 80% dos casos seja por algo bonitinho e que ouviu dizer que e melhor, não porque saiba tecnicamente que o MacOS é BSD ~ Unix; ou seja: snobismo).
    2) no mundo móvel o rwindão tá ganhando?!?!?? tem alguma coisa errada nessa estatística!!
    Adicionar um comentário...

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  5. 2016 e ainda usam "rwindow$" em um argumento?

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  6. Concordo! A começar com o sr. Augusto Campos...

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  7. O mundo inteiro é assim, as visto que este fenômeno é focado no Brasil, me restringi a ele.

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  8. Não achei a matéria que do que a MS está vencendo no mercado mobile.

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  9. "Os ativistas, ao invés de tentar enfiar uma filosofia na cabeça das pessoas, deveriam incentivar os usuários com conhecimentos mais avançados a desenvolverem novos programas e a melhorarem os já existentes a fim de atrair mais usuários para os sistemas livres."

    Estou nessa porcaria desde o Mandrake 9.0 e esse comentário de longe é o mais significante e esperto que eu já li.

    Parabéns.

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  10. Ressalvas ... o ponto de vista radical é importante para o equilíbrio da balança ... quanto ao Windows este esta tentando se reinventar a cada dia, existe um declínio claro e eminente e em breve não haverá grandes diferencias entre os S.O e a briga será na Dispositivação e Cloud Computer ... Microsoft entendeu isto e foca em ser uma empresa de serviço ... Quanto ao purismo pregado por alguns é sim benéfico tendo em vista ser o coração do Linux ou em breve não teremos mais GNU/Linux e sim Microsoft/Linux

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  11. Comentário besta é o seu. Afinal o cara chama do que quiser, não está desqualificando ninguém. Já vi várias vezes esse seu argumento, e normalmente o intuito é desmerecer o emitente, que, normalmente é xingado de maneira pessoal, logo depois da tentativa de desqualificação, com ataques pessoais (que não aconteceu nesse caso). Simples assim.

    A sua msg é raza nos argumentos, na verdade não têm nenhum. Creio que a tentativa de desmerecer a opinião do rapaz é só sua falta de argumentos.

    Eu já combati diversas vezes esse pseudo-argumento, acontece que o nome ruindous muitas vezes é usado sem nem a pessoa conhecer outras alternativas, o cara fala ruindous muitas vezes pq trava, pq tem vírus, pq dá problemas, etc. e não pq está promovendo outro SO. É claro que num blog que fala de software livre, Linux, Unix, etc. certamente as pessoas que comentam, sabem o que é um SO, e que existem vários e podem sim tentar promover alternativas.

    Respondendo a sua pergunta: chamar de ruindou$ não é argumento. Mas será que vc estava interessado em algum argumento? Vc não rebateu nenhuma das outras coisas que o cara escreveu.

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  12. Sou obrigado a discordar. O "ponto de vista radical" não apenas não traz equilíbrio algum como ainda afasta potenciais novos usuários e causa discórdia etre os já existentes.

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  13. O evento chama-se Festival Latino-Americano de Instalação de Software Livre, não Festival Latino-Americano de Instalação de Software Não Windows.

    Seria o mesmo que alguém defender que em um evento de Handebol houvesse partidas de Volei e Basquete, porque a maioria prefere Futebol.

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  14. Gostei da atitude além de discorda publicou uma ótima dica, mas SEMPRE existira os extremos o equilíbrio esta em analisar o cenário e ponderar, pois o mundo não é feito de 8 ou 80 contudo temos argumentos validos em ambos os lados e saber filtrar e uma dadiva.

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  15. e nem vai achar... Android (Kernel Linux) disparado na frente, seguido de iOS (Kernel BSD e Kernel Mach) e lá na puta q pariu vem a microsoft com pouco mais de 2% ...ele está equivocado (ou maravilhado com a microsoft e seus poderes maravilhosos)

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  16. […] texto foi escrito ANTES de ele voltar atrás (pero non mucho…😉 ) da opinião destilada nesse texto. O abaixo foi escrito originalmente para o VOL em 29/02/2016 e reproduzo agora aqui no meu blog. […]

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