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Usando o Android sem as aplicações do Google

Este artigo não representa mais minha visão sobre o software livre e está sendo mantido aqui apenas por razões históricas. Para minha visão atual, veja este artigo.


Neste ano, fui criticado por alguns usuários de Software Livre pela aparente contradição de eu defender o SL mas usar um telefone inteligente com Android que, apesar de ser livre, vem carregado de aplicativos proprietários. Apesar de reconhecer as críticas, explico  que tinha um bom motivo para manter a versão de fábrica do sistema: comprei meu telefone - um Moto G de segunda geração - em Outubro de 2014 e, todo esse tempo, ele ainda estava na garantia, a qual acabou no final de Outubro de 2015. Resolvi manter o sistema intacto pois o produto, na época, custou pouco mais de R$ 600,00 e, ao contrário de certas pessoas, dou valor àquilo que conquisto.



Apesar de o sistema de fábrica da Motorola ser satisfatório, o mesmo começou a apresentar vários problemas estruturais. O primeiro foi - e continua sendo - a demora da empresa em liberar uma atualização para seus dispositivos. O segundo - como bem comentado na época do lançamento do Android Lollipop - foi a visível diminuição de performance do aparelho, após a atualização, em comparação com a versão original, 4.4. Além disso, estava cada vez mais preocupado com o descarado rastreamento feito pelo Google através de seus aplicativos. Para se ter uma ideia, descobri que os servidores da empresa de busca armazenam os locais em que você esteve, as pesquisas que você fez, os aplicativos que abriu e, ainda, gravam sua voz, caso você utilize o famoso recurso "Ok, Google".


No encontro da bolsa na semana passada que tenho com o professor Slomp, o mestre me mostrou que havia removido os aplicativos da Google de um tablet que utilizamos para nossas pesquisas. Notei que a maioria dos programas instalados funciona perfeitamente bem sem a presença desses programas e finalmente compreendi que não preciso mais deles. Estava na hora de tomar uma atitude! Por isso, resolvi substituir a ROM stock do meu aparelho por alguma livre (ou, ao menos, o mais livre possível) e não instalar os famosos GApps.


Aliás, aqui vale um alerta: os famosos GApps são aplicativos proprietários desenvolvidos pela Google para "melhorar" a experiência dos usuários com Android. Os fabricantes precisam pagar para ter acesso a esses aplicativos. Portanto, instalar versões desses programas disponíveis na web é ilegal, visto que você não pagou a licença ao Google.


A primeira alternativa que veio à mente foi o famoso sistema livre Replicant, mas ele só funciona em, literalmente, uma dúzia de aparelhos. A próxima alternativa era o famoso CyanogenMod, mas eu vi que a versão estável correspondente ao Android 6 ainda não foi lançada, havendo apenas builds semanais. Por isso, escolhi, a princípio, uma ROM chamada Nexus Experience, que prometia entregar uma experiência próxima a dos dispositivos Nexus e, segundo o site, já tinha uma versão estável.


Meu plano, então, era faer o backup das informações - principalmente dos contatos -, desbloquear o bootloader, instalar o TWRP e instalar a nova ROM.



A instalação


O desbloqueio do bootloader foi tranquilo, através de tutoriais bem conhecidos na Internet. Bastou utilizar os comandos do adb para obter os dados de desbloqueio e solicitar o código no site da Motorola. Deu tudo certo, mas ao contrário do que os tutoriais e vídeos ensinavam, o telefone não se reiniciou sozinho após o desbloqueio, sendo que eu tive de fazer isso manualmente.


Telefone reconfigurado, hora de substituir a tela com o aviso de desbloqueio pela original e de instalar o TWRP. Aqui algo de estranho aconteceu, pois mesmo o computador dizendo que o TWRP havia sido instalado com sucesso, ao reiniciar o aparelho não era possível acessá-lo, sendo que o único recovery disponível era o do fabricante.


Pesquisando, descobri que a ROM stock possui um mecanismo de "proteção" que restaura o recovery original a cada boot. A solução, então, era instalar o TWRP e acessar o recovery sem reiniciar o aparelho. Deu certo!


A instalação da NXRom foi tranquila e, em poucos minutos, eu já estava usando um Android puro, sem os aplicativos rastreadores da Google (e o TWRP foi instalado permanentemente).



Problemas e soluções


A primeira impressão que tive da ROM era de espanto, afinal, ela estava mais fluída do que o KitKat original do aparelho! Era algo rápido que fazia as coisas quase antes de o usuário pedir. Mas vinha sem nada e, aí, começaram as limitações.


O browser padrão do Android - um com ícone verde - é limitadíssimo. Minha primeira ação foi baixar o aplicativo do repositório F-Droid, mas o simples fato de solicitar o download fazia o browser travar e sair. A solução foi baixar o APK pelo computador e transferi-lo pelo cabo USB. Deu certo.


A segunda providência, claro, era baixar um navegador melhor. O F-Droid possui o Firefox que, no tablet do prof. Slomp, não funcionou sem os aplicativos da Google. Além disso, uma aviso na página do F-Droid dizia que aquele navegador em breve seria removido do repositório e sugeria usar o FFUpdater, que promete baixar e instalar a versão estável mais recente do navegador da Mozilla. No meu caso, ele baixou, mas não instalou.


Outros aplicativos foram substituídos por alternativas livres sem problemas, como o Twidere, para acessar o Twitter, o NewPipe, para ver vídeos do YouTube e o OsmAnd~ para navegação e mapas.


A importação dos contatos ocorreu tranquilamente, mas logo percebi que, além de um monte de gente que eu nem me lembrava quem é, vários contatos estavam duplicados, triplicados, quadruplicados... Aí não teve jeito: fiquei a manhã de hoje apagando e fundindo os contatos desnecessários.


Outro problema foi com o cliente de e-mail padrão do sistema, que não aceitava minha conta do GMail, dizendo que a senha estava incorreta. Na manhã seguinte, acessei a caixa de entrada do computador e vi que a Google havia impedido o login de um dispositivo "desconhecido e inseguro". Mais um pouco de pesquisa e foi só alterar uma configuração na conta que tudo deu certo.



O root desastroso e a instalação do CyanogenMod


Já que eu havia desbloqueado o bootloader e trocado a ROM, nada melhor do que fazer o famoso root. Assim, baixei o SuperSu do site do ChainFire e o "flasheei" via TWRP. Foi um desastre.


Apesar de o aplicativo SuperSu aparecer na lista de apps disponíveis, o programa não abria ao se acioná-lo. Além disso, o aplicativo Root Verifier, utilizado para verificar se um dispositivo possui acesso root, ficava travado ao fazer a verificação.


Fora isso, houve inúmeros problemas de estabilidade: o Firefox começou a travar e o dispositivo não voltava após a tela se apagar por inatividade, sendo necessário reiniciá-lo. Além de uma vasta lentidão que tomou conta de todo o smartphone.


A solução foi reinstalar a ROM mas, dessa vez, resolvi arriscar o CyanogenMod 13, mesmo sabendo que ele ainda não está estável.



Deu tudo certo!


Captura de tela do CyanogenMod


Finalmente, tenho uma ROM (quase) livre e sem os aplicativos da Google. Estou positivamente impressionado com o Cyanogen 13, em especial com os fatos de que:




  • O sistema está ocupando apenas 783 MB de espaço, em comparação com os quase 3 GB da versão Stock. (após o download dos mapas do OsmAnd~, o espaço ocupado subiu para 1,73 GB.)

  • Há a possibilidade de se escolher um modo noturno, deixando os menus escuros e, assim, economizando-se bateria;

  • É possível escolher quatro modos de bateria: Power Save, Efficiency, Balanced e Performance.

  • Ao contrário das versões anteriores, você pode escolher ou negar individualmente as permissões dos aplicativos. Assim, por exemplo, você poderia negar a permissão de acesso à web a um aplicativo que exibe propagandas ;)

  • Além disso, há um novo menu em Configurações chamado Privacidade, com um item chamado Proteção à Privacidade, pelo qual você pode selecionar aplicativos que não conseguirão acessar seus dados pessoais. Claro que o Firefox foi um dos primeiros a serem marcados.


O que perdi?


Claro que toda essa liberdade possui um preço e um deles é que, a partir de agora, não poderei mais usar meu Chromecast com o smartphone, visto que, para isso, é necessário possuir o aplicativo do aparelho, que só funciona com os GApps instalados. Além disso, estou tentando encontrar um GPS em tempo real comparável ao Google Maps.



Vale a pena?


Sem dúvida que vale! Principalmente na época atual, onde o preço da tecnologia está inacessível à maioria da população, a instalação de uma ROM como a CyanogenMod ou a NexusExperience sem os aplicativos do Google é algo fundamental, pois essas ROMs mais enxutas podem dar uma vida nova a aparelhos fabricados há um ou dois anos (ou mais) e que estão sofrendo com suas ROMs stock, induzindo seus proprietários a comprarem novos dispositivos sem necessidade.

Comentários

  1. João Paulo Coimbra30 de dezembro de 2015 00:10

    Quer "liberdade" e instala o Cyanogenmod? Esta empresa que vive de mãos dadas com a Microsoft? Antes tivesse ficado na stock mesmo. Se quer liberdade instala o Firefox OS ou o Ubuntu Touch aí sim verá algo livre.

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  2. Se o senhor tivesse lido o meu texto, veria que o Cyanogen foi minha segunda opção. Além disso, a Mozilla já anunciou que vai descontinuar o Firefox OS, logo ele também não é uma opção. Agora, você sugere instalar Ubuntu Touch para ter mais liberdade? HAHAHAHAHAHAHA!!!!!

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  3. Qual a diferença entre não usar o aplicativo do Twitter e usar o serviço do Twitter? O mesmo para o Youtube.

    Só para esclarecer mesmo.

    Att.

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  4. Achei interessante o seu relato, já tentei usar outras roms, mas por alguns problema sempre volto para a stock, hoje eu tenho um nexus 4 que optei por desinstalar ou desativar alguns apps que não uso ou que não esta com um funcionamento legal. Um recurso que gosto muito no android é a sincronização de contatos, vejo que para a maioria dos recursos conseguimos contornar, mas os contatos ainda não achei uma solução!

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  5. André, na verdade o Firefox OS foi descontinuado no último dia 9 de dezembro. Realmente uma pena... Quanto ao Ubuntu Touch, pelo que fiquei sabendo não é tarefa fácil instalá-lo em dispositivos outros, além daqueles que já são vendidos com ele (pena que, no Brasil, não haja nenhum ainda). Estou com um Galaxy 2 e gostaria muito de fazer root e tentar, primeiro um Cyanogenmod e depois o Replicant, mas não há um tutorial com retorno bom de sucesso... e veja que já rodei muito net afora procurando (sempre vem acompanhado de comentários, do tipo "no meu não funcionou"...). Aliás, se alguém pudesse me ajudar, em São Paulo, como em uma INSTALL FEST, ficaria muito agradecido.

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  6. Como pode ser visto a ideia de liberdade varia com o ponto de vista de cada um:
    @João Paulo Coimbra: é viver pelado na mata e caçar com os próprios dentes
    @André Machado: casa de campo, com opção caçar com arma de fogo
    @Eu: morar na cidade, mas podendo escolher passar temporadas entre o campo e floresta.
    Qual o melhor? O que mais se adequa a sua necessidade.
    Uso Linux e alguns softwares livres, mas não consigo ver seriedade no ideal de "liberdade" pregado pelo SL quando vc não é livre pra escolher o tipo de software usar, vc mesmo comentou que foi criticado por usar um aparelho com software proprietário.
    Logo somente se é livre quando se está PRESO ao Software Livre?

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