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Ubuntu: Adotar, Estender, Extinguir

Este artigo não representa mais minha visão sobre o software livre e está sendo mantido aqui apenas por razões históricas. Para minha visão atual, veja este artigo.


Muito tem se falado a respeito da distribuição Ubuntu ultimamente. Não apenas eu, no ano passado, expressei minha opinião sobre a mesma avisando que ela era nociva à nossa liberdade de software como, neste ano, houve uma polêmica a respeito da presença do mesmo no Flisol, Festival Latino-americano de instalação de software livre.



Por um lado, os usuários mais ativistas do software livre acusam o sistema da Canonical de não respeitar as quatro liberdades fundamentais e coletar dados de seus usuários, enviando tais informações aos servidores da Canonical e da Amazon. Por outro, muitos usuários da distribuição colocam sua suposta facilidade de uso e a liberdade de escolha acima dessas questões.


Recentemente, eu tive uma epifania e pude visualizar o que está realmente por trás do Ubuntu e das jogadas comerciais da Canonical. Trata-se de uma estratégia desenvolvida por ninguém menos do que a Microsoft durante a década de 1990: o famoso Abraçar, Estender, Estinguir.


Essa expressão foi cunhada pelo departamento de justiça dos EUA para descrever " sua estratégia de lançar produtos envolvendo padrões amplamente usados, estendendo esses padrões com funções proprietárias e incompatíveis e então usar essas diferenças para por seus concorrentes em desvantagem". De acordo com a Wikipédia em inglês, a estratégia se divide em três fases:




  • Adotar: é desenvolvido um software amplamente compatível com um produto competidor ou com um padrão público;

  • Estender: São adotados e promovidos novos recursos não suportados pelo produto concorrente ou que não fazem parte do padrão, criando problemas de interoperabilidade para os clientes que tentarem usar o padrão original.

  • Extinguir: Quando esses novos recursos se tornam um padrão de facto devido à parcela de mercado dominante, eles marginalizam os concorrentes que não utilizam essas extensões.


O exemplo mais gritante foi a Guerra dos Browsers, ocorrida no final dos anos 1.990: após não conseguir promover sua versão proprietária da Internet, a The Microsoft Network, a empresa adotou publicamente a World Wide Web. Logo em seguida, porém, ela estendeu a linguagem HTML padrão ao criar os controles ActiveX e algumas tags e sintaxes que só funcionavam no navegador Explorer, causando desvantagens aos usuários de Netscape. No início da década de 2.000, este concorrente foi extinto, o Explorer era considerado o navegador padrão e os padrões web haviam sido esquecidos, até o surgimento do Firefox, que quebrou o ciclo.


Uma estratégia similar pode ser observada com o Ubuntu e seu ecossistema. Senão, vejamos:


Abraçar: Em 2.004, surge a Canonical e o seu sistema operacional, o Ubuntu, que nada mais era do que uma remasterização do Debian com um tema próprio. Através de seu slogan de "Linux para seres humanos", de sua promessa de ser sempre gratuito e do envio sem custo de CDs a qualquer parte do mundo, o Ubuntu conquistou uma legião de usuários e de desenvolvedores.


Estender: Em 2.010, o tema padrão do Ubuntu deixou de ser marrom alaranjado para se tornar roxo, o que muitos acreditam simbolizar uma mudança do lado comunitário para o comercial. Desde essa mudança, a Canonical implementou várias mudanças exclusivas para o seu sistema, dentre as quais podemos destacar: a plataforma de colaboração de softwares Launchpad e seus PPAs, seu próprio servidor de janelas, o Mir, seu próprio ambiente desktop, o Unity, seu próprio gerenciador de inicialização, o Upstart e, agora, seu próprio formato de pacotes, o Snappy. Tudo isso, claro, com a desculpa de estar fazendo algo melhor e inovador, ao invés de tentar melhorar o que já existe.


Extinguir: Com uma grande comunidade tanto de usuários quanto de desenvolvedores, o Ubuntu se tornou o padrão de facto do mundo SL/CA. A maioria dos blogues "especializados" em Linux considera que seu leitor está ou estará usando Ubuntu para seguir algum tutorial - mesmo que o assunto em questão seja algo genérico, como a reinstalação do GRUB - e vários projetos de software livre ou migraram para o Launchpad ou só possuem versão binária disponível como PPA, dificultando a vida de quem deseja usá-los em outra distribuição (incluindo, aí, o Debian).



Onde eu quero chegar?


Se você, leitor, se despir de seu preconceito, perceberá que falta muito pouco para a Canonical ter um sistema independente: ela só precisa criar seu próprio userland - ferramentas de linhas de comando que acompanham o kernel - e, talvez, sua própria suíte de escritório, visto que o kernel Linux que acompanha a distro, muitas vezes chamado de "kernel Ubuntu", quase pode ser considerado um projeto independente devido à grande quantidade de patches que recebe.


Mas e daí, pergunta você, qual o problema disso tudo? O problema é que, a cada dia, o Ubuntu está se tornando cada vez mais independente e, dessa forma, marginalizando as outras distribuições existentes. Mais do que isso, um belo dia a Canonical poderá resolver fechar seu sistema - da mesma forma que a Google fez com o Android - e acabar aprisionando seus usuários. O mesmo pode ser dito do systemd.


Voltando ao exemplo da Internet, uma vez que o concorrente é extinto, a inovação cessa. O Internet Explorer ficou anos na mesma versão, sem inovação alguma, até que chegou um concorrente para lhe tirar de seu trono. Seria esse destino uma bela ironia aos usuários noobs que enchem o saco dos veteranos repetindo o enjoativo mantra de que "não podemos parar a inovação"? Fica no ar, a dúvida.

Comentários

  1. Tomara que o Ubuntu siga por este caminho mesmo. Vai ser bom pra ela e pras outras distros. E pra nós, usuários gnu/linux, por tabela.

    Vivemos num novo momento, nossa mentalidade mudou em relação ao que pensávamos em 1995/1998, era do Internet Explorer, e uma atitude dessas acabaria por forçar novidades e abriria novas portas.

    Lembre-se que a Canonical é uma empresa e, como empresa, visa somente uma coisa, meu caro: LUCRO. Não se engane quando ela diz que pensa em você, na comunidade etc.

    Não vejo o porquê de se preocupar.

    Abrs.

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  2. Eu uso ubuntu por enquanto, mas estou flertando com outras distros mais livres como o Trisquel
    E até agora tenho tolerado esses problemas da canonical.
    Se a canonical fechar o Ubuntu será o fundo do poço e aí eu deixo o SO sem arrependimento.
    Há formas melhores de ganhar lucro e se a Canonical ainda nao percebeu o ouro que tem na mão, merecer virar um MS da vida ganhando bilhoes e virar inimiga da liberdade. Se eles acham que é um preço baixo a pagar pelo lucro, então a empresa ta no caminho certo.

    Estou vigilante quanto a isso e não estou só.

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  3. "e vários projetos de software livre ou migraram para o Launchpad ou só possuem versão binária disponível como PPA, dificultando a vida de quem deseja usá-los em outra distribuição (incluindo, aí, o Debian)."

    A diferença é que antes era difícil pra todo mundo, e agora é difícil pra quem está fora do Ubuntu. Não acho que o Ubuntu seja o problema. A Canonical só está implementando uma solução que é boa pra ela.

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  4. Bruno dos Santos Almeida11 de maio de 2015 02:38

    Concordo com o Maurício, a Canonical é uma empresa. Ela querer utilizar os dados coletados dos seus usuários é normal o Google faz isso a muito mais tempo e ninguém reclama. O Facebook a mesma coisa. Assim como Twitter e muitos outros. Isso é um modelo de negócio. Outra coisa, ela AINDA não restringiu o uso dos pacotes, ou seja não gostou? Vai lá e remove. O Ubuntu sempre foi, e acho que sempre será, uma distribuição baseada no Debian. Se não gosta do rumo que o Ubuntu está tomando só voltar para o Debian ou para outras milhões de distribuições que são baseadas nele. Acho que o maior problema é que o mundo mudou, as pessoas mudaram e os objetivos também porem esses pensamentos/fundamentos do software livre permaneceram estáticos, imutáveis. Já foi provado pela história e pela natureza que aquilo que não se adapta morre. E se a comunidade não se adaptar o destino será este mesmo.

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  5. Por favor me perdoem, mas eu acho toda esta discussão sem sentido !!!

    Comparar Canonical com Microsoft ??

    A Microsoft tinha um monopólio nas mãos, tinha o poder para forçar seus produtos goela abaixo dos compradores !!!

    A Canonical não está nem perto desta posição ...

    Acordem !!!

    Esta discussão não tem nenhum sentido !

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  6. Sinceramente, nunca fui adepto de ubuntu, não gostei nem de suas versões mais amigaveis.
    E sim acho que Canonical pode ser comparada Microsoft, ambas tem estratégias de mercado semelhantes que desejam tomar o controle, como acham que a MS conseguiu o monopolio? Com ajuda divina?
    Agora temos que combater os demonios, tanto proprietarios como os "livres", bora a luta!

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  7. Se não gostou, parte pra outra. Sai do grupo.

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  8. Diz ainda qual é a melhor forma da Canonical gerar lucro,? Estou curioso para saber, afinal com tudo que ela faz ainda fecha no vermelho.

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  9. Até onde eu sei, tudo que a Canonical implementa esta com o código fonte aberto, usa e adapta a suas necessidades quem quer.

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  10. Rogério Ferreira11 de maio de 2015 06:40

    O mais engraçado de toda essa história é que todas as críticas são direcionadas à Canonical, mas não vejo ninguém reclamando da Red Hat, que possui o Project Atomic (http://www.projectatomic.io/), projeto com o mesmo conceito do Sanppy da Canonical, que por sua vez tem o mesmo conceito dos empacotamentos de sucesso do Android (Google) e do Mac OS X (Apple).

    O mesmo acontece a respeito do Personal Package Archive (PPA), onde se critica a Canonical por afastar-se dos padrões (INOVAR?), sem se dar ao luxo de pesquisar um pouco e ver que esta evolução é necessária e benéfica às demais distribuições, haja vista que o recém eleito Líder de Projeto do Debian, Neil McGovern, propôs a adoção pelo Debian da mesma estrutura utilizada,com sucesso, a anos pelo Ubuntu (https://www.debian.org/vote/2015/platforms/neilm).

    Outro argumento falho é a afirmação de que a Canonical deveria parar de fugir dos padrões (INOVAR?) e, ao invés de investir em novas tecnologias, deveria ajudar a melhorar o que já existe. Porém, deve ser observado que existem tecnologias que não devem ser mais evoluídas e sim substituídas, como é o caso do Ext4, onde o principal desenvolvedor do projeto, Theodore Ts'o, informou que Btrfs é o futuro dos sistemas de arquivos, e que as suas inovações não podem ser aplicadas ao Ext4 sem transformá-lo em uma colcha de retalhos (http://en.wikipedia.org/wiki/Btrfs#History).

    Então, antes de criticar a iniciativa adotada por qualquer empresa desenvolvedora de software livre, por favor, faça uma pesquisa detalhada sobre o assunto. O Linux, como qualquer outro sistema operacional, precisa evoluir, e projetos inovadores como o Btrfs, Snapper (SUSE), Apparmor (Canonical), SELinux (Red Hat), Docker, Snappy (Canonical), Mir (Canonical), Wayland e outros, são a base dessa evolução.

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  11. No mundo tem louco pra tudo; até pra dar "golpe de estado" fechando o Ubuntu e o tornando proprietário. Acho improvável mas não impossível; se vier a acontecer fico tranquilo; estou pilotando o Debian Stable 8 XFCE e muito tenho a agradecer a Canonical porque graças ao Ubuntu/ Xubuntu dela é que cheguei ao Debian; uso os dois(Debian e Xubuntu) e se preciso fosse; usaria até o Windows também! Se a questão é liberdade; sou livre e uso o que eu quiser! ;)

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  12. Ta ai um novo "Geraldo do Linux" muita polemica e muito ibope pra muita abobrinha. Nota 10 André Machado pela enrolação,mas vai ter que melhora muito. ;)

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  13. Parabéns Andre Machado! Seu texto é muito bom, concordo com tudo. é imressionante como a maioria das pessoas estão cegas e acham normal serem controladas, manipuladas, exploradas. Parece o discurso do escravo que acha melhor não ser livre mas ter um senhor que cuide (explore) dela e decide por ela, porque pensar por si mesmo e arcar as responsabilidades das próprias escolhas é um preço que acha demasiado caro para se ser livre. É incrivel como a maioria das pessoas que veem a postagem defendem o ubuntu mesmo sem argumento. infelismente todos só veem o imediato, aquilo que imediatamente diz respeito unicamente e exclusivamente ao seu bem estar. Em outras palavras, a maioria vê apenas o proprio umbigo, e justifica isso falando que apoia a inovação e que não há nenhum problema em visar apenas o lucro. Esse é um pensamento muito raso e mediocre.

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  14. André, referente ao seu artigo gostei e concordo com seu ponto de vista.

    Quanto aos FanBoys:

    Uso Slackware em meus computadores pessoais desde a versão 7.0. Não estou nem aí para o Ubuntu e a Canonical. O GNU/Linux e o SL/CA são mais importantes que ele

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  15. Não entendi, primeiro qual o problema em querer coletar estatisticas? todo bom software faz isso, afinal como eles vão saber quais os apps mais usados para focar mais no desenvolvimento destes? lembrando que é possível desativar esta opção.
    quanto ao PPA está errado querer centralizar o desenvolvimento de sofwatare? se os desenvolvedores não querem empacotar para outras distros a culpa e deles e não da canonical ela só fez algo para ajudar os desenvoledores disponibilizarem seu softwares de uma maneira padrão. a culpa é das outras distros que não fazem algo do tipo.
    A exemplo Google Chrome que quando criado, foi dado o motivo que era para garantir que os Browsers cotinuariam a evoluir com as necessidades da web.
    Se as demais distros não querem evoluir o problema e delas!!

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  16. Você falou, falou e não apresentou nenhum argumento concreto. Quando você for falar de algo do tipo, apresente provas pois hoje em dia não há espaço para o "achismo" na internet.

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  17. Como não apresentei? Talvez seja você quem não saiba ler. Os fatos falam por si. Compare a história recente desta distribuição com o que escrevi e você verá quem está falando a verdade. Apenas não se deixe cegar pela Canonical.

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  18. Em terra de cego, quem tem um olho é rei. Indiscutivelmente o Linux é a melhor opção para servidores em 99% dos casos. Já para uso doméstico, ele está anos luz atrás do OSX e do Windows. De acordo com as regras de mercado, onde o cliente/usuário utiliza o que lhe for mais conveniente, o atual estágio do desenvolvimento do Linux para uso doméstico não é boa. Como só filosofia não enche barriga, a Canonical resolveu preencher esse vácuo e FOI A ÚNICA que de fato quis fazer um Linux para uso doméstico. O resultado disso é sua popularização. Ainda tem muito o que fazer. A interface com o usuário deve ser aprimorada e consistente (no Linux ainda não é - olha que eu falei Linux, não Ubuntu) e os gerenciadores de dependência devem ser extintos desse universo - deixe isso para os servidores.

    De fato, falta pouco para a colonial conseguir. Espero que consiga. Se a ideologia da empresa vai contra a sua, ótimo, não use o Ubuntu. Também não precisa ficar com raivinha porque a distro mais querida do mundo não a que você escolheu. Basta não usar o Ubuntu.

    Para finalizar, a Liberdade é um dos mais preciosos e valorosos direito humano. Antes da liberdade de código, vem a Liberdade de escolha. Liberdade essa que deve ser respeita, independente da escolha da pessoa. Se escolhe o OSX, o Windows, o Ubuntu, ou sua distro, deve respeitar. Se não tem capacidade de respeita a liberdade de escolha, como acha que tem o direito de julgar alguém por não escolher algo totalmente livre?

    A liberdade de escolha vem antes da liberdade de código. Vem antes do Software Livre. Aceite esse fato.

    Eu sei que a maioria do público desse site irá discordar de mim. Mas esse é o preço da liberdade: eu tenho a liberdade de não concordar com o autor.

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  19. Fale mal quem quiser, mas a distribuição Ubuntu é a mais amigável de todas e por isso é a mais famosa distribuição Linux.

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