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Por que empresas não devem contratar alunos das melhores universidades do Brasil

2014 já chegou fazendo barulho na Internet. No crepúsculo (eca!) do ano que se  acabou há alguns dias, vários sites e fóruns foram sacudidos e pegos de surpresa por esse texto, escrito por Felipe Albertão, que é um engenheiro de software brasileiro que vive nos EUA. Em pleno ano da Copa, onde tudo é uma maravilha nesse país tropical, ele simplesmente desceu a lenha e explicou, com todas as letras, por que as empresas estrangeiras não devem contratar profissionais das "melhores" universidades brasileiras.



Embora o conteúdo do texto possa deixar todos os Policarpo Quaresmas P... da vida, o que ele diz é a mais absoluta verdade. Pelo visto, a máscara que foi pintada pelos governos anteriores de que o Brasil era o "país da oportunidade" está começando a cair e o pessoal de fora está começando a perceber isso.


Felipe começa dizendo que ele às vezes recebe pedidos de ajuda de empresas estrangeiras que querem se estabelecer no Brasil para encontrar candidatos para as vagas necessárias e que, curiosamente, a descrição do emprego, provavelmente escrita por uma empresa local de recursos humanos, frequentemente inclui o nome de alguma universidade brasileira como requisito para o preenchimento da vaga, como USP ou Unicamp para o preenchimento de vagas técnicas.


O que nosso autor cita em seguida é a realidade a qual ninguém quer ver: mesmo que a USP se diga a melhor universidade do país (título que, na verdade, pertence à UFRGS de acordo com uma pesquisa obscura recente), ela não está entre as 100 primeiras colocações do índice World University Ranking (segundo o autor, a USP está na posição 158 e a FGV, que teria o melhor MBA do país, sequer aparece na lista).


Mesmo que alguém possa contestar os critérios utilizados para compor essa lista, na prática, isso significa que, embora os filhinhos de papai tupiniquins daqui se orgulhem de suas universidades serem consideradas as melhores do país, essas instituições nem fazem cócegas em uma Harvard, em uma Cambridge ou em um MIT. Ou seja, o que nós consideramos melhor é simplesmente lixo perto daquilo que está disponível nos países realmente desenvolvidos.


O cara poderia parar aí, mas vai além ao dizer que o grande equívoco que as empresas estrangeiras cometem ao contratar formados das melhores universidades é que eles vão desempenhar um papel muito melhor do que aqueles que se formam em universidades de segunda ou de terceira linha.  Ele diz que o sistema educacional brasileiro é segregado de forma a fazer com que apenas os membros das classes mais privilegiadas alcancem o ensino superior, o que os leva a dar, no ambiente de trabalho, soluções e ideias irreais que não se adequam à realidade do povo brasileiro.


Nesse ponto, eu concordo em partes. Como estudante de licenciatura, eu tomei conhecimento da existência do chamado currículo oculto, que é um conjunto de práticas adotadas no ambiente escolar a fim de privilegiar os membros das classes mais altas e conformar os dos estratos mais inferiores à sua condição servil. Muito embora o currículo oculto não seja uma exclusividade brasileira, é muito fácil percebê-lo: cartilhas do primeiro ano geralmente mostram a criança brincando, a mamãe fazendo comida, o papai chegando do trabalho e uma empregada afrodescendente arrumando a casa, já introduzindo na mente da criança os papeis de cada um na sociedade. Além disso, a forma com a qual os conteúdos são ensinados para as diferentes classes sociais também é importante. A Matemática, por exemplo, é ensinada para os membros da classe média alta para que eles possam ter o conhecimento da dominação das classes inferiores, enquanto que, para o aluno daquela escola pública, o conteúdo é o mais difícil e complexo possível, para que ele possa, rapidamente, sentir-se burro e parar de estudar, nunca chegando a um nível de ensino superior.


O currículo oculto também se mostra no fato de que muitos estudantes de escolas públicas, as quais não têm condições de pagar uma particular, são, muitas vezes, obrigados a pagar um cursinho a fim de serem aprovados no vestibular de uma universidade pública. Muitos vão dizer que as políticas de cotas sociais diminuíram essa discrepância, o que é verdade, mas que está muito longe de ser o ideal. Essa matéria de um jornal de grande circulação em Porto Alegre mostra que os estudantes que entram na UFRGS através do sistema de cotas, em geral, tem um desempenho pior daqueles que entraram sem elas. Isso ocorre devido ao fato de que, como já me foi dito, uma vez que o estudante cotista passa no vestibular, lá dentro ele é só mais um como todos os outros e não recebe qualquer assistência. É fácil prever, então, que um estudante que passou no terceiro ano apenas decorando fórmulas em Matemática terá dificuldades em disciplinas como Cálculo e Álgebra Linear.


Felipe termina suas críticas dizendo que, se ele fosse contratar alguém no Brasil, ele pegaria alguém das universidades de segundo ou de terceiro nível porque o Brasil de quem se forma nas universidades "top" não é o mesmo do resto da população, o que é verdade, visto que chamar nossa distribuição de renda de irregular é tecer um elogio à mesma.


Indo para o campo educacional, esse cenário também se mostra nas salas de aula. Muitas vezes, os professores, talvez devido à falta de tempo de pesquisar ou de planejar melhor as suas aulas, adotam livros didáticos e exercícios que, simplesmente, estão fora da realidade daquele estudante. É a famosa pergunta "para que eu vou usar isso na minha vida?". Muitos professores não sabem a resposta e apenas dizem "Você precisa estudar isso porque cai no vestibular'. Cria-se, assim, um círculo vicioso, onde o aluno estuda apenas para ser promovido e não possui a menor noção de como vai utilizar aquele conhecimento adquirido na escola ou na universidade para auxiliar a sua família, o seu bairro ou a sua comunidade.


Enfim, é um texto forte mas que eu recomendo a leitura, afinal, neste ano todos vão se lembrar da Copa e se esquecer, sistematicamente, que somos o penúltimo país no ranking global de educação.

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